Caderno de memórias coloniais – Moçambique [Legendi Mundi]

O livro Caderno de Memórias Coloniais apareceu na minha frente numa visita despretensiosa à livraria. A resenha do livro aparece aqui na furando a fila de muitas outras, porque o impacto que a obra causou em mim precisa mesmo ser compartilhado.

Depois do Legendi Mundi, tudo que faço é andar por aí procurando novas mulheres escritoras desse mundão que possam fazer parte do projeto.

Moçambique é a terra de Mia Couto, um dos meus escritores favoritos, mas confesso que ainda não tinha lido nenhuma mulher desse país que tem tanta coisa parecida com o Brasil.

Moçambique foi colonizado por portugueses. Lá, se fala português, como aqui. O livro de Isabela Figueiredo foi o primeiro escrito por mulher moçambicana que já li.

Foi impossível resistir ao impulso de trazer o Caderno de Memórias Coloniais pra casa.

As memórias de uma menina “branca de alma preta”, vivendo entre a admiração por seu pai, os despertar sexual da adolescência e as injustiças sócio-raciais de uma Moçambique que está em vias de deixar de ser colônia de Portugal.

O livro é um dos mais envolventes que li nos últimos tempos. Daquelas leituras que não dá pra largar, acabei tudo em poucos dias. As impressões que tive (e foram boas, marcantes) vou deixar aqui na resenha. Segue o fio.

Ficha técnica:
País: Moçambique | Livro: Cadernos de Memórias Coloniais | Autora: Isabela Figueiredo (Maputo, de Moçambique) | Idioma: Português | Publicação original: Editorial Caminho, 2015 | Publicação no Brasil: Editora Todavia, 2018 | Tipo de literatura: Literatura Estrangeira, Biografia, Autobiografia, Memórias, Não-ficção | Onde se passa a história: Lourenço Marques (atual Maputo) em Moçambique, e Lisboa, Portugal.

Quando eu li: 08/08/19 – 14/080/19

Um livro para Moçambique: Cadernos de Memórias Coloniais

Toda história tem (pelo menos) duas versões: a do vencedor e a do derrotado, a do conquistador e a do conquistado. O problema é que, em geral, apenas uma delas é contada nos livros e se torna a verdade absoluta sobre os fatos. Quase nunca é a versão do derrotado.

Talvez por isso o livro Cadernos de Memórias Coloniais tenha causado tanto estardalhaço no cenário literário português. Ouvir algumas verdades da vida nas terras colonizadas pode ser bem pouco agradável para o colonizador.

Imagine o burburinho de lançar em Lisboa um livro de memórias de alguém que estava lá e lembra bem que o colonizador português não foi exatamente o ‘salvador da Pátria’ para os países colonizados.

Esqueça essa história que os portugueses vieram de longe trazendo progresso, educação e prosperidade. Houve muita exploração, saque, racismo e dominação. Brasileiros, isso parece bem familiar, hein?

Afrontosa, no mínimo, essa Isabela Figueiredo. Gostei dela logo de cara, só pela coragem de falar verdades tão bem escondidas pelas páginas de história.

O bonito do livro é que parece um diário, uma confissão, um depoimento. As memórias de uma menina que cresceu em Moçambique, dentro de uma estrutura colonial, patriarcal, racista.

Seus pais saíram de Lisboa em busca de fortuna na colônia, e conseguiram uma situação de conforto explorando homens e mulheres negros.

Como toda adolescente, Isabela foi crescendo curiosa pelo sexo, e começou a explorar suas possibilidades de forma inocente, delicada, primeiro com uma amiga, depois com um preto – só pra citar algumas das afrontas à sociedade que essa menina branca andava aprontando.

O olhar de Isabela andava cada vez mais desperto para perceber os problemas sociais e políticos dessa Moçambique colonial.

As melhores praias da cidade eram de uso para brancos. Os trabalhos mais bem remunerados? Destinados aos brancos. Enquanto isso, adivinha quem era explorado, negligenciado, mal remunerado em Lourenço Marques (atual cidade de Maputo em Moçambique)? Pois é, o negro.

A fábula de redenção contada pelo colonialismo português vai sendo desconstruído na mente de Isabela e isso transparece em suas memórias escritas.

Mas ao mesmo tempo em que expõe as injustiças sociais de toda uma época, Isabela vivencia uma crise pessoal. Ela ama seu pai, mas percebe que há algo de errado com seus negócios, já que ele enriquece enquanto explora negros.

O despertar completo de Isabela só acontece quando a menina precisa se afastar dos pais, indo sozinha para Lisboa fugida da “descolonização” que aconteceu pós revolução dos Cravos, em 1974 – uma reviravolta política e social que colocou os negros nos papéis dominantes da sociedade.

resenha Caderno de Memórias Coloniais

Os brancos começaram a ser perseguidos na antiga colônia. Isabela é mandada para a metrópole, recebendo do pai a missão de contar por lá o que estava acontecendo em Moçambique – como os brancos estavam sendo perseguidos e injustiçados…

No livro, Isabela afirma mais de uma vez que “traiu seu pai”, porque ela nunca cumpriu essa missão. De certa forma, Isabela se confessa e se desculpa com seu pai, ao mesmo tempo em que não se arrepende de ter rompido esse elo de conivência com um sistema explorador.

Uma pequena dificuldade que senti na leitura vem da própria linha narrativa da autora. Como é um apanhado de memórias, nem sempre os acontecimentos aparecem de forma ordenada, e muitas vezes os sentimentos mais intensos atrapalham a narração.

O livro não segue uma linha temporal. Como se Isabela fosse abrindo as gavetas da mente e revisitando memórias aleatórias. Vai e volta no tempo entre suas lembranças de família e acontecimentos históricos e políticos que dão o cenário para a obra. Essa viagem pela mente da autora não é ruim, às vezes só é confusa.

Recomendo muito a leitura de Caderno de Memórias Coloniais, especialmente para quem gosta de história e quer entender mais um pouco sobre as relações de poder durante a história de colonização em Moçambique.

Um pouco sobre Isabela Figueiredo

Isabela nasceu em 1963 em Moçambique, onde viveu com seus pais até 1975, quando migrou para Lisboa para morar com parentes, poucos dias depois da Revolução dos Cravos em Portugal.

A revolução depôs o regime ditatorial do Estado Novo em Portugal e trouxe a democracia para o país, além de resultar na independência das colônias. Com isso, a situação dos brancos portugueses ficou bem complicada em Moçambique depois de 25 de abril de 1974.

Depois disso, viveu em Lisboa na companhia de parentes. Lá tornou-se professora e escritora e é considerada uma das escritoras em português mais poderosas da atualidade.

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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