Fique comigo – Nigéria [Legendi Mundi]

Resenha livro Fique comigo | Ao terminar de ler Fique Comigo, da escritora nigeriana Ayòbámi Adébáyò, só posso dizer que as escritoras africanas não param de me encantar.

Só pra dar dois exemplos, nomes como Chimamanda Nzogi e Scholastique Mukasonga, que já ganharam expressão mundial, são autoras que eu recomendo de olhos fechados.

E quanto mais nomes da literatura africana eu conheço, mais me envolvo com as histórias contadas pelas mulheres deste continente que eu pessoalmente conheço tão pouco.

Fique comigo é um livro sobre perda e luto, casamento e tradições. Tudo isso tendo como cenário de fundo a turbulenta Nigéria dos anos 1980.

Além disso, é um livro importante e necessário para discutirmos a força de tantas mulheres que encaram monstros internos e externos, muitas vezes sozinhas.

Mais um dos títulos que super indico, que entrou pra lista de favoritos do Legendi Mundi, minha volta ao mundo com livros escritos por mulheres.

Um livro para Nigéria: Fique Comigo

“E aí, quando vem os filhos?”. Os jovens casais do Brasil com certeza já ouviram essa pergunta em alguma festinha de família.

A tradição, a falta de assunto – ou tudo isso junto. Nossa sociedade espera que casais jovens tenham filhos.

Geralmente pouca gente pergunta se o casal QUER ter filhos. A pergunta costuma ser QUANDO. Isso quando a pergunta já não vem acompanhada de uma crítica que “estão demorando demais”.

A (falta de) sensibilidade dessa pergunta esbarra na dúvida de se o casal quer, se já está pronto para isso (financeira e psicologicamente), ou mesmo se pode ter filhos – já imaginou a dor que essa pergunta pode causar em uma mulher que quer ter filhos, está tentando mas não consegue engravidar?

Comecei essa discussão mostrando um pouco da realidade cultural do Brasil, para te transportar para a Nigéria junto com Yejide e Akin, um jovem casal que se conheceu na faculdade e logo casou.

O marido Akin queria muito um filho. A família dele, então, nem se fala. A pressão começa a aumentar em cima de Yejide, mas a gravidez parece uma realidade distante para o casal.

Aí vem a grande reviravolta da história: embora a poligamia seja aceita na Nigéria, o casal tinha concordado desde o começo que não haveria outras mulheres.

Mas a família de Akin não se conforma e arruma uma segunda esposa pra ele, tudo em prol do herdeiro tão desejado. A partir daí, a crise se estabelece na relação do casal.

O livro tem um jogo de tempo interessante, transportando o leitor para dois momentos diferentes da narrativa (2008 e 1985). A autora primeiro apresenta o cenário futuro, e depois desenrola a história a partir do passado.

Se o enredo tivesse sido montado de outra forma, talvez isso acabasse com a curiosidade do leitor. Mas, teve o efeito contrário. Ayòbámi Adébáyò escreveu de forma a deixar o leitor super curioso para entender como as coisas aconteceram e como foram parar naquele ponto.

Outra coisa interessante é que a autora mostra a história sobre a perspectiva do casal. Tanto Akin quanto Yejide podem apresentar sua versão dos fatos, e o leitor pode escolher um lado para apoiar.

Talvez por isso o livro seja tão envolvente, de certa forma interativo. Você acaba se envolvendo e defendendo seu personagem favorito dentro da complicada crise familiar de Yejide e Akin.

Ayòbámi ainda capricha nas reviravoltas ao longo do texto e presenteia a gente com um final realmente surpreendente.

Sobre a complicada situação política da Nigéria, embora apareçam menções sobre ditadores e presidentes depostos, isso fica mais como um plano de fundo da história, que pouco interfere na narrativa do casal.

Uma pena, gostaria de ter visto mais referências à como essa instabilidade política interferia na vida da população do país.

De toda forma, gostei muito do livro. Ele levanta discussões importantes sobre sociedades patriarcais (a Nigeriana, mas não porque a nossa aqui no Brasil também?), a interferência da família nas relações conjugais, a fragilidade do casamento, infertilidade e a cobrança depositada na mulher.

Sobre a autora: Ayòbámi Adébáyò

Ayòbámi Adébáyò é uma escritora jovem, que nasceu em Lagos, na Nigéria, em 1988. Ela já ganha bastante expressão como escritora no cenário internacional, tendo sido inclusive convidada para a FLIP 2019.

Fique Comigo é seu livro e estréia e foi publicado em mais de 15 países, recebendo inúmeros prêmios – inclusive classificado entre os melhores do ano de 2017 pelo The New York Times. The Economist e The Wall Street Journal.

Ficha técnica:
País: Nigéria | Livro: Fique comigo | Autora: por Ayòbámi Adébáyò  (Nigéria, de Lagos) | Tipo de literatura: Romance nigeriano | Quando li: 2019.

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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