Herdeiras do Mar – Coreia do Sul [Legendi Mundi]

Resenha livro Herdeiras do Mar | Regras foram feitas para serem quebradas, alguém disse uma vez. E o livro Herdeiras do Mar deu uma leve sacudida nas “regras” que eu escrevi lá no começo do projeto Legendi Mundi.

Eu falei que queria ler livros de mulheres nascidas no país… Pois bem: esse livro fala da Coreia – mas a autora Mary Lynn Bracht é alemã. Só prestei atenção nesse detalhe um tempo depois, mas achei que valia a pena incluir o livro no projeto mesmo assim.

Primeiro, porque Mary Lynn Bracht é descendente de coreanos – sua mãe nasceu e viveu num pequeno vilarejo na Coréia do Sul, que a autora chegou a visitar. E mais, Mary cresceu em uma comunidade de imigrantes coreanos nos EUA.

E segundo, porque a história se passa toda na Coreia, e é um verdadeiro mergulho na cultura, história e tradições locais, desde a época da segunda guerra mundial até os dias de hoje.

E mais: a história da guerra é contada totalmente sob a perspectiva feminina, num conflito que é, na sua maior parte das vezes, contado pela voz e letras de homens que foram para a batalha.

Ou seja, quebrei as regras do projeto? Acho que só um pouquinho, vai? Valeu a pena? Demais.

Vamos lá. Deixa eu dar minhas impressões sobre o livro Herdeiras do Mar.

Um livro para Coreia do Sul: Herdeiras do Mar

Herdeiras do Mar foi editado e publicado em português pela Tag Livros, como o livro de março do clube Tag Inéditos.

Eu assino o clube há um tempo exatamente porque, bem frequentemente, eles enviam livro de autoras que eu não conheço, e de países que ainda não foram lidos para o Legendi Mundi.

Só pra citar alguns outros livros que vieram no clube: Todas as cores do céu (Índia), Existo, existo, existo (Irlanda) e Fique comigo (Nigéria).

O livro é um romance histórico (eba!). A narrativa e protagonismo é dividido entre duas irmãs, Hana e Emi. Seguindo a tradição da família, as duas são ‘mulheres do mar’, ou haenyeo.

Quer dizer, no começo do livro Hana já é iniciada na tradição, e a pequena Emiko ainda é muito jovem, mas em breve sua cerimônia aconteceria e a tradição seria mantida, perpetuada de mãe para filhas.

Há muitos séculos, as haenyeo são mulheres pescadoras da província coreana da ilha de Jeju. Elas trabalham por conta própria. Desde cedo, treinam seus pulmões e corpo para mergulhar nas águas geladas do mar, sem nenhum equipamento de respiração.

Com as mãos, pescam e juntam em sua rede ostras, polvos e tudo que puderem agarrar. A tradição das “mulheres sereias da Coreia” exige muito do corpo, e como se podia esperar, está perdendo espaço entre as gerações mais novas e está seriamente ameaçada de desaparecer.

Eu nunca tinha ouvido falar dessas mulheres, e só por aprender sobre as haenyeo, já considerei a experiência do livro maravilhosa. Inclusive, junto com o livro vieram alguns postais com fotos das mulheres haenyeo, que vou guardar com muito carinho.

Resenha Livro Herdeiras do Mar, Coréia
Foto: Fui Ser Viajante

Mas a imersão cultural que o livro traz é ainda maior. A história se passa durante a ocupação da Coreia pelos japoneses, durante a segunda guerra.

Emi ainda não começou a mergulhar com as haenyeo. Um dia enquanto espera na praia, alguns soldados japoneses se aproximam. Hana percebe o perigo e se coloca entre os soldados e sua pequena irmã, tentando esconde-la.

Hana acaba sendo levada como prisioneira – e seu futuro é selado como uma escrava sexual, ou “mulher de consolo” para os soldados japoneses em um bordel na Manchúria.

O livro segue com a saga das duas irmãs para contornar esse momento de separação. Hana tentando sobreviver e quem sabe fugir para voltar para sua família, e Emi amargando a saudade e a culpa por ter deixado sua irmã ser levada prisioneira enquanto ela se escondia.

O drama das duas irmãs é intenso. Me afeiçoei muito a Hana, uma personagem que me deu uma dimensão muito potente da força das mulheres haenyeo.

Outra coisa importante a citar – e que precisa ser cada vez mais levantado – é o papel das mulheres em guerras e conflitos. Quase nunca a perspectiva das mulheres é levantada ou discutida quando falamos de campos de batalha e conflitos.

Trecho do livro Herdeiras do Mar, De Mary Lynn Bracht
Foto: Fui Ser Viajante

Em A guerra não tem rosto de mulher (de Svetlana Aleksiévitch, representando a Ucrânia no projeto), já tinha tido uma visão impactante sobre o que é (e como) uma mulher sai de sua casa para combater numa guerra.

Em Herdeiras do Mar, a visão é outra: de como as mulheres podem ser exploradas em regiões de conflito. Escravas sexuais, prostitutas, mulheres que perdem o controle sobre seus corpos para satisfazer soldados.

Uma exploração que transforma a vida de uma mulher – e que tem sido esquecida e silenciada entre as inúmeras consequências de uma guerra.

Estima-se que entre 50 e 200 mil mulheres foram sequestradas, enganadas ou vendidas para servir como escravas sexuais aos japoneses durante a ocupação da Coreia pelo Japão. A maioria morreu no caminho, ou durante o tempo de exploração sexual.

Muitas das “halmoni” (avós) que sobreviveram à exploração sexual nunca conseguiram contar sua experiência aos familiares ou comunidade.

Em nome da honra de uma sociedade patriarcal, muitas foram abandonadas pelos familiares quando conseguiram voltar pra casa. E viveram o resto das suas vidas sozinhas, ou junto de outras ‘halmoni’.

Somente em 1991, mais de 40 anos depois do fim da ocupação japonesa, a primeira mulher veio a público falar sobre a realidade das ‘mulheres de consolo’ durante os tempos de guerra. Seu nome foi Kim Hak-sun. Com esse ato de coragem, outras se pronunciaram depois dela.

Aprender tudo isso em um livro é muito. É um mergulho numa cultura totalmente nova, e um aprendizado dolorido e necessário sobre os lugares que as mulheres foram forçadas a ocupar – e suas formas de resistir.

Confesso que no começo, o livro me parecia um tanto lento, e não empolguei de cara. Mas quanto mais a narrativa mergulhava na história e nos conflitos de Hana e Emi, mais eu me interessei por aprender sob seu mundo e sobre suas histórias.

Herdeiras do mar é um dos livros mais significativos dessa jornada do Legendi Mundi.

Primeiro, porque foi um livro escrito por uma descendente, que me mostrou saber tanto sobre sua cultura e o país de onde vieram seus pais. Isso abre novas perspectivas sobre a escolha das autoras para o projeto.

Segundo, porque foi um livro muito tocante, e que ensinou, mais uma vez, como em todas as sociedades e em todos os tempos, as mulheres vem sendo exploradas de tantas formas – e vem encontrando outras tantas maneiras de resistir.

É uma realidade que não podemos esconder. Que precisamos denunciar.

Sobre a autora: Mary Lynn Bracht

Mary Lynn Bracht nasceu em Stuttgart, na Alemanha. Ela cresceu nos Estados Unidos, como parte de uma comunidade de imigrantes sul-coreanos. Anos mais tarde, chegou a ir à Coreia do Sul, visitar o vilarejo onde sua mãe cresceu.

Ela estudou Antropologia e Escrita Criativa. Apesar de ter ascendência coreana, ela não tem relação com as mulheres haenyeo, e todo o livro foi escrito com base em pesquisas, como um esforço da autora para preservar e divulgar a cultura das mulheres sereias da Coreia para as futuras gerações.

Mary Lynn Bracht recebeu o prêmio de melhor romance de estreia da Guilda de Escritores da Grã-Bretanha pelo livro Herdeiras do Mar.

Ficha técnica:
País: Coreia do Sul | Livro: Herdeiras do Mar | Autora: Mary Lynn Bracht (alemã de ascendência coreana) | Tipo de literatura: Literatura de ficção, ficção histórica | Quando li: Maio de 2020.

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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