Hibisco Roxo – Nigéria [Legendi Mundi]

A resenha de Hibisco Roxo vai marcar minha volta com o Legendi Mundi por aqui. O projeto nunca parou de verdade, eu estava lendo do lado de cá, mas por muitos motivos não estava escrevendo as resenhas.

Vou tentar correr atrás do prejuízo pra colocar aqui cada passinho dessa volta ao mundo com livros escritos por mulheres.

Hibisco Roxo está entre as obras mais aplaudidas da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.

A obra tem algumas características que fazem um encaixe perfeito com o Legendi Mundi: fala de como é a vida na Nigéria, de como é ser mulher e crescer menina nesse país de tradições tão fortes e um governo muitas vezes opressor.

O enredo de Hibisco Roxo teve qualquer coisa de arrebatador para mim. Senti uma forte identificação com a protagonista e narradora, Kambili. Acho que, de certa forma, por ela me animei a voltar a escrever as resenhas aqui. Essas histórias precisam ser contadas.

Então lá vamos nós. Resenha de Hibisco Roxo, de Chimamanda Ngozi Adichie.

Ficha técnica:
País: Nigéria | Livro: Hibisco Roxo (original: Purple Hibiscus) | Autora: Chimamanda Ngozi Adichie (Nigéria, de Enugu) | Idioma: Traduzido para português (tradução de Julia Romeu) | Publicação original: Publishing Company, 2003 | Publicação no Brasil: Editora Cia. das Letras, 2011 | Tipo de literatura: Ficção nigeriana | Onde se passa a história: Unungu e Nsukka, Nigéria.

Um livro para a Nigéria: Hibisco Roxo

O que você sabe sobre a Nigéria?

Eu confesso que sabia muito pouco e a narrativa de Chimamanda me arrastou direto para o olho do furacão.

Kambili é uma garota de 15 anos, filha de Eugene, que nasceu pobre mas deu uma guinada na vida depois de se converter para o catolicismo dos missionários brancos britânicos que chegaram na Nigéria ainda durante sua infância.

Eugene se tornou um fanático e, embora o livro não detalhe como, se transformou em um capitalista muito, muito rico, dono de uma fábrica e um jornal e com imensa influência sobre sua comunidade.

Eugene cria sua família sob um “ambiente controlado”, onde oferece, ao mesmo tempo:

  • estabilidade financeira e conforto,
  • uma fé obsessiva e punitiva,
  • noções de altruísmo e doação (talvez com um componente de vaidade)
  • níveis absurdos de cobrança, e
  • castigos rígidos (demais) por qualquer deslize.

Uma figura conflitante, o pai beira um nível de insanidade pela obsessão religiosa, que o leva a fazer o bem para empregados e pobres (provavelmente esperando ser reconhecido por isso), mas rejeitar o próprio pai “pagão”, que permaneceu fiel aos costumes locais e não se converteu à religião dos brancos.

Eugene também era capaz de agredir alguém da família (emocional e fisicamente) por cada mínima transgressão, instantes depois lamentar o ocorrido, para na próxima oportunidade agredir novamente, sem pensar duas vezes. O sofrimento visava a “um bem maior’.

A família inteira, Kambili, mãe e irmão, sentem a opressão dessa figura paterna dominante, que muitas vezes confunde amor com loucura.

Eles só percebem que tem algo muito errado com essa realidade do “amor paterno” quando passam uma pequena temporada na casa da tia Ifeoma e seus três filhos.

A tia, professora universitária, sofre ao criar os filhos sozinha depois da morte do marido, mas o que falta em dinheiro sobra em amor, partilha e coletividade. Todo mundo tem voz na casa da tia Ifeoma.

Resenha Hibisco Roxo - Chimamanda Ngozi Adichie

A relação em casa se torna conflituosa, especialmente depois que irmão de Kambili, Jaja, começa a enfrentar a autoridade do pai.

A situação toda é ainda mais agravada pelas crises políticas no governo da Nigéria, que começa a “eliminar” funcionários do jornal de Eugene, após publicação de matérias com críticas ao novo regime.

Um livro sobre colonização, religião e diversidade, patriarcado, dominação do mais forte sobre o mais fraco e um longo caminho pela conscientização do significado da liberdade.

Hibisco Roxo é um dos favoritos da minha estante até agora.

Um pouco sobre Chimamanda

Conheci a autora numa TED Talk onde ela explana o problema que existe em uma história única. Nada no mundo tem apenas uma versão. Tudo tem pelo menos dois lados, quando não muitos outros.

Nunca fique satisfeito com uma história única. Escute as outras versões. Como a versão de uma menina rica sobre a colonização da Nigéria pelos católicos britânicos. Ou a história de sua tia, expulsa do trabalho de professora universitária por ser “perigosa para o novo governo”.

Pontos de vista inusitados, porém reais e necessários. Especialmente por serem vozes que o “sistema” tentou silenciar.

Escute as histórias. Escute quem tem medo ou nem pode falar. Foi isso que Chimamanda me ensinou e que vou levar pra vida.

Chimamanda nasceu em Enugu na Nigéria em 1997 e é uma escritora feminista, reconhecida como uma das mais importantes vozes contemporâneas em língua inglesa.

Gostou da resenha de Hibisco Roxo?

Aproveite que aqui tem mais pra você:

+ Compre seu exemplar de Hibisco Roxo (digital ou impresso).
+ Leia mais sobre o projeto Legendi Mundi, essa maravilhosa volta ao mundo com livros escritos por mulheres.

Confira outros livros de Chimamanda:

+ Meio sol amarelo
+ No seu pescoço
+ Americanah
+ Sejamos todos feministas
+ Para educar crianças feministas – um manifesto

Lila Cassemiro
Pernambucana, contadora de histórias e bem curiosa. Geminiana apaixonada por artes e culturas, sempre com a mala pronta pra viajar de novo. Eu gosto de gente.
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