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Ruanda: Nossa Senhora do Nilo #LegendiMundi

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Como eu escolhi o livro de Ruanda para o Legendi Mundi? Foi amor a primeira vista. Mas não foi o título, nem a capa do livro que chamou minha atenção. Foi a posição de destaque na livraria, que dizia que a obra Nossa Senhora do Nilo, da Editora Nós, foi escrito por Scholastique Mukasonga, uma das principais atrações da FLIP 2017.

Como não admirar essa mulher? Sou fã declarada da história, da força, da resiliência. Scholastique nasceu dentro da etnia tutsi, mas emigrou para o Burundi e em 1992 escapou para a França, dois anos antes do massacre étnico que devastou Ruanda em 1994. Sua família, no entanto, não teve a mesma sorte. Vinte sete parentes (incluindo a mãe de Scholastique) foram vítimas dessa disputa entre hutus e tutsis. Imagine a força que foi necessária pra recomeçar sozinha, tão longe de casa?

Também imagino que escrever Nossa Senhora do Nilo tenha sido uma enorme luta pessoal pra ela. Afinal, o livro traz a tona o problema da disputa de poder entre tutsis e hutus em Ruanda durante a década de 1960, talvez a raiz do problema que mais tarde viria dizimar a sua família e expulsar Scholastique do seu país.

Ficha técnica:

País: Ruanda | Livro: Nossa Senhora do Nilo | Autora: Skolastique Mukasonga | Idioma: Português | Publicação original: Gallimard, 2012 | Tipo de literatura: Ficção, Ficção histórica | Onde se passa a história: Ruanda da década de 1960.

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O Liceu Nossa Senhora do Nilo e a estrutura social de Ruanda

A história se passa praticamente inteira dentro da escola de meninas Nossa Senhora do Nilo, no alto de uma montanha entre a bacia dos rios Congo e Nilo. A escola de base religiosa recebe as filhas da elite de Ruanda – que fazem parte do povo hutu.

Ao mesmo tempo, um sistema de cotas permite que algumas poucas alunas tutsi entrem nesse cenário, o que permite que a gente perceba, desde cedo, a segregação social que leva as meninas tutsi a serem perseguidas ou renegadas, o que mostra que os problemas sociais estavam bem vivos mesmo entre crianças e adolescentes da Ruanda de 1960, e prenunciam o conflito racial sanguinolento que iia acontecer alguns anos depois.

Nossa Senhora do Nilo é comovente. É impossível não se envolver com as questões sociais, escolher uma menina favorita no Liceu, sofrer com a tensão que permanece sempre no ar entre os grupos raciais.

Outro destaque do livro é que enquanto apresentada o drama social, Scholastique nos conduz com maestria por muitos aspectos da cultura e tradição de Ruanda. Mística, lendas, crenças, festas típicas são colocadas no dia-a-dia das meninas no Liceu. E como não poderia deixar de ser entre um livro recheado de adolescentes, mentiras, competição e ansiedades quanto ao casamento e à sexualidade das jovens ruandesas é apresentado de forma marcante no livro.

Nossa Senhora do Nilo é uma obra sobre a cultura e os costumes de Ruanda, mas também sobre a violência, as disputas e desigualdades raciais. A problemática de Scholastique escancara a realidade de como disputas étnicas podem acabar em uma guerra civil.

Mais que isso, nos leva a refletir sobre o pouco que sabemos sobre as tradições e os problemas de países africanos por vezes tão distantes da nossa realidade. Por isso, Nossa Senhora do Nilo se tornou um título essencial na minha biblioteca, e é com muito orgulho que coloco  a obra na lista do Legendi Mundi.

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O que significa o sucesso de Scholastique Mukasonga: para Ruanda e para o mundo

Ruanda não é um país de muita tradição literária. Scholastique possivelmente é o nome de maior expressividade na literatura contemporânea do país. Os prêmios que ela carrega no currículo (Renaudot 2012, Ahmadou Kourouma 2012, Océans France Ô, só pra citar alguns) reafirmam a força da voz de Scholastique.

Antes de precisar fugir do país, Scholastique teve tempo de aprender, viver a cultura de Ruanda. Entender o que significava nascer tutsi num país dominado por hutus.

Quando ela conta as histórias dessa Ruanda quase esquecida pelo resto do mundo, ela dá voz e vez para o povo do país. Memórias, dores e costumes que agora podem ser lidos, conhecidos, debatidos.

A voz de Scholastique também representa muito para o povo tutsi, perseguido e dizimado. E para cada mulher de Ruanda, cada mulher negra do mundo, que Scholastique é capaz de representar.

Você também pode adquirir o outro livro de sucesso de Scholastique Mukasonga na Amazon: A mulher de pés descalços, inspirado na mãe da autora!

 

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