Um livro para o Uruguai: A Trégua, Mario Benedetti

O Projeto Legendi Mundi não podia ter começado melhor. A Trégua foi um dos melhores livros que li recentemente. Foi minha estreia com um autor uruguaio, e minha estreia com Benedetti. E que estreia! Praticamente devorei as folhas do velho diário do senhor Santomé, com a curiosidade de quem tem os segredos mais profundos da alma de um homem nas mãos.

Ficha técnica:

País: Uruguai | Livro: A trégua | Autor: Mário Benedetti (uruguaio) | Idioma: Traduzido para português | Tipo de literatura: Romance | Onde se passa a história: Montevidéu, Uruguai, década de 1950.

Sobre A Trégua – sem spoiler!

O livro é escrito na forma de diário. Quem conta os dias é o velho Santomé, um viuvo amargurado pela incerteza do que será sua vida com a iminente aposentadoria. Ao mesmo tempo, Santomé não tem mais paciência para o trabalho enfadonho no setor administrativo de uma empresa de autopeças. Dualidade, incertezas, a vontade que o tempo passe e o medo de que o futuro chegue. Parece com a vida de qualquer um de nós, certo? Também vi um Santomé confuso com as emoções. Não sabia como se aproximar e se relacionar com seus filhos e arrisco dizer que era um senhor angustiado pela solidão.

“Segunda, 11 de fevereiro
Só me faltam seis meses e 28 dias para estar em condições de me aposentar. Deve fazer pelo menos cinco anos que mantenho este címputo diário de meu saldo de trabalho. Na verdade, preciso tanto assim de ócio? Digo a mim mesmo que não, que não é de ócio que preciso, mas do direito a trabalhar no que eu quiser. Por exemplo? Jardinagem, quem sabe”.

Eu juro que, pelo enredo, não esperava que a história fosse empolgante. Afinal, nada mais rotineiro e previsível que a vida de Santomé. Mas Benedetti se mostrou um mestre em transformar o corriqueiro em algo extremamente envolvente. No meio do caminho, um amor imprevisto vem temperar as páginas de A Trégua. A vida de Benedetti vai se moldando a esses sentimentos, e ele chega a acreditar que é feliz de novo. Até sua postura perante a vida muda, e dá pra notar algo como esperança na narrativa. Mas o mais interessante do romance de Santomé não é o amor em si, mas as reflexões – e descobertas – sobre a vida, despertadas por esse novo sentimento.

Santomé e o tempo

As reflexões de Santomé sobre a vida, a morte, o sexo, o trabalho e a solidão parecem muito com nossas próprias reflexões. Por isso é fácil se identificar e torcer por ele. A gente acompanha a reflexão de Santomé acerca do tempo: o tempo que teve, o tempo que tem, o que talvez terá. E como lidar com esse tempo que nunca para pra ninguém. Eu juro que, no final, tudo que eu queria era que Santomé fosse feliz!

“Às vezes me sinto infeliz simplesmente por não saber do que estou sentindo falta.”

A Montevidéu de Benedetti

O livro foi muito além do que eu esperava nesse quesito. Vocês viram no projeto que eu vou sempre preferir um livro no qual a história se desenrole no país em questão. Eu queria uma história vivida em Montevidéu, e Benedetti me entregou muito mais. A Trégua é praticamente um city tour por ruas, prédios e restaurantes da cidade. Alguns que eu lembrava, alguns que eu não conhecia. Como é delicioso reconhecer numa obra os lugares que a gente viu ao vivo em uma viagem – o mesmo vale para o contrário, como é gostoso ver ao vivo os lugares que só conhecemos pelos livros.

Se você já foi à capital uruguaia, ao ler A Trégua, vai revisitar a Montevidéu querida com os relatos de Santomé.

“Creio que, até agora, eu nunca tinha tomado consciência da Praza Matriz. Devo tê-la atravessado mil vezes, talvez tenha amaldiçoado, em outras muitas ocasiões, o desvio que é preciso fazer para contornar o chafariz. (…) Fiquei um bom tempo contemplando a alma agressivamente sólida do Cabildo, a face hipocritamente lavada da Catedral…”

Fiquei feliz de ter escolhido Benedetti para representar o Uruguai. Por mais que eu esteja dando preferência à voz feminina, Benedetti é uma enorme referência para o Uruguai. Além disso, A Trégua é considerada uma das melhores obras da literatura sul-americana. Virou filme inclusive – que rodaram em Buenos Aires, a contra-gosto de Benedetti. Fiquei feliz de demais de ter conhecido Santomé e Mario Benedetti 🙂

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A trégua

A explicação para o título só vem nas últimas páginas. Mas não vou contar o que é, porque foi a maior surpresa de um livro que segue quase em linha reta, numa narrativa gostosa, simples e rápida, até as últimas 10 páginas. Basta saber que é uma surpresa, mais uma, na vida de Santomé.

No fim, A Trégua é uma reflexão sobre o tempo. Eu acabei apegada a Santomé, e não sei bem dizer se o desejo de vê-lo feliz não é algo que representa o meu próprio desejo por felicidade. Santomé é um pouco de todos nós.

“É preciso bastante coragem (um tipo muito especial de coragem) para manter o equilíbrio, mas não se pode evitar que aos demais isso lhes pareça uma demonstração de covardia. E o equilíbrio é, hoje em dia, uma grande desvantagem que em geral as pessoas não perdoam.”

A Trégua foi publicado originalmente em espanhol, em 1960, e a edição que li foi traduzida para português e publicada em 2012, pela Folha de São Paulo. A tradução é de Joana Angélica D’Avila Melo. O livro está disponível no site da Amazon.

Agora vamos para a Argentina?

 

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A Trégua - Mario Benedetti

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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Comentários:

Estava bem animada com esse seu projeto e confesso que não poderia ter começado melhor. Eu tenho uma vontade enorme de viajar para o Uruguai, não sei explicar essa vontade, mas ela existe e entre tantas opções Montevidéu está na minha lista dos top 10 destinos da wish list.

Acabo de incluir o livro na minha lista de desejos da Amazon, volto depois para contar como foi minha experiência! 😉

Klécia disse:

Que bacana Mayte!Fico empolgada quando viajo pelos livros tanto quase tanto quanto nas viagens da vida real. Uruguai é um dos meus países mais queridos, entao vou colocar mais expectativa ainda e dizer que você vai amar!
Sobre a Amazon, com o lançamento do Projeto Legendi Mundi, o Fui Ser Viajante se tornou afiliado da Amazon para facilitar a disponibilização de links para venda dos livros que vão passar por aqui. Se precisar, é só usar nosso link de afiliado! Você não paga nada a mais por isso e ajuda nosso blog a continuar produzindo cada vez mais conteúdo de viagem e de leitura 🙂

Opa, que maravilha! Já está na lista e logo logo vou começar a ler e volto aqui para contar como foi a minha viagem .=D

Klécia disse:

Eba! Ansiosa por aqui!

Eu já estou completamente apegada a Santomé e doida para saber se ele foi ou não feliz! Esse livro duas coisas que adoro em uma história: cidades como personagens e narrativas sobre o cotidiano, pois assim o personagem é centro da história e não necessariamente os acontecimento! 🙂 bjuusss

Klécia disse:

Eu acho que você ia gostar muito de passear por Montevideu com Santomé, Ana! E o livro é uma delicia de ler, como uma viagem 🙂