Uruguai: A Árvore das Estrelas Vermelhas

Mais de uma pessoa comentou comigo que o Legendi Mundi vem colocando livros bem especiais na minha mão.

Eu tenho que concordar. Venho conhecendo mulheres fortes, que contam histórias de personagens da mesma forma grandes e inspiradores.

Curiosamente, em todos os países que visitei até então (Argentina, Paraguai e Chile), eu fui conduzida pelas mãos de uma mulher como personagem principal.

Comecei a pensar: há alguma tendência para que mulheres costumem contar as histórias de outras mulheres?

Ou isso tudo tem sido tudo uma enorme coincidência? O livro do Uruguai, A Árvore das Estrelas Vermelhas, de Tessa Bridal, também tem uma mulher forte como protagonista. Uma história tão envolvente que foi difícil não ‘devorar’ o livro inteiro nos primeiros dias de 2017.

O livro A Árvore das Estrelas Vermelhas foi uma indicação da Analuiza, do blog Espiando pelo Mundo. Obrigada, Ana! Se você também tem um livro para indicar para o Legendi Mundi, deixa o nome e autora aqui nos comentários do post!

O Legendi Mundi é um projeto de volta ao mundo literária, com livros escritos por mulheres. Leia mais sobre o projeto aqui e veja todas as resenhas dos livros participantes aqui.

A árvore das estrelas vermelhas: um livro para o Uruguai no Legendi Mundi

Sabe quando uma história envolve você completamente? Do começo ao fim de A Árvore das Estrelas Vermelhas, Tessa Bridal nos encanta com uma narrativa repleta de detalhes, bem redondinha.

Daquelas que nos capturam de um jeito que a gente nem quer fugir. Me peguei rindo sozinha várias vezes. Na verdade, não sozinha. Rindo com Magda, ou Magdalena, que nos leva para uma Montevidéu dos anos 1960 e 70.

Uma época em que ela começou a descobrir a vida, o amor e os medos e coragens necessárias para enfrentar um regime político opressor.

Eu não vou cansar de elogiar essa narrativa de Tessa. Escrita com tantos detalhes, a autora transporta a gente pra dentro da história de Magda. Imaginei cada detalhe da rua nobre que ela vivia em Pocitos.

Vi a antiga árvore onde ela e sua melhor amiga Emília começam a observar a mudança do mundo, junto com a mudança das estações. Vi seu primeiro amor, cada um de seus sonhos. E torci como nunca pela felicidade dessa menina!

Ficha técnica:

País: Uruguai | Livro: A Árvore das Estrelas Vermelhas | Autora: Tessa Bridal (nasceu e cresceu no Uruguai) | Idioma: Português | Publicação original: Milkweed Editions, 1997 | Tipo de literatura: Prosa, ficção | Onde se passa a história: Montevidéu dos anos 1960 e 1970.

Entre ditaduras e revoluções… Um livro cativante do começo ao fim!

A caracterização dos personagens é envolvente. A gente ama, chora e se identifica com várias histórias que cruzam o caminho da jovem Magda.

Personagens que de início pareciam ter um papel de menor relevância de repente viram peças chaves da narrativa de Tessa. Ela definitivamente soube conduzir essa história!

Magda era de uma família rica. Os contrastes sociais podiam passar bem longe dos seus olhos, no nobre bairro de Pocitos, Motenvidéu.

Mas sua natureza (e alguns amigos e situações) a fazem perceber que a realidade da vida vai mais além que os chás e os domingos na praia com os amigos.

A personagem vai crescendo (literalmente), página a página. Depois de uma temporada fora do país, Magda retorna para um Uruguai conturbado, ameaçado por uma ditadura (que já explodia nos países vizinhos da América do Sul).

Amigos presos e machucados levam a menina a se envolver com movimentos de resistência populares.

Antes de A Árvore das Estrelas Vermelhas, eu nunca tinha ouvido falar dos Tupamaros. Para ser sincera, sabia muito pouco sobre a ditadura no Uruguai.

E tenho que confessar: eu só entendi completamente o título do livro quando eu fui pesquisar na internet sobre esse grupo de guerrilheiros urbanos, que operou nas décadas de 1960 e 1970, antes e durante a ditadura civil-militar no Uruguai.

Adivinhem qual era o símbolo desses Tupamaros?

A Árvore das Estrelas Vermelhas, Tessa Bridal. Um livro para o Uruguai no Legendi Mundi

A vida inspirando a arte de Tessa Bridal

Nem tudo é ficção em A Árvore das Estrelas Vermelhas. Muitos fatos históricos apresentados por Tessa Bridal são reais. Os paralelos do livro com o que realmente aconteceu no Uruguai entre os anos 1960 e 1970 são impressionantes.

Como por exemplo o atentado contra o guerilheiro Enerto Che Guevara em 17 de agosto de 1961 (embora isso tenha ocorrido em Punta del Este, e no livro a referência seja a Montevidéu) e o sequestro do assessor policial estadunidense Dan Mitrione, uma retaliação dos Tupamaros ao financiamento americano à implantação da ditadura no país.

O livro acaba sendo uma verdadeira aula de história e o cotidiano no Uruguai em meados do século XX.

Mais uma coisa que essas mulheres incríveis do Legendi Mundi tem me dado: um retrato muito vívido sobre as lutas e memórias de seu povo e seu país.

Mais de um livro já me colocou no meio dos conflitos da ditadura dos países sul-americanos.

Foi assim no livro da Argentina, com várias referências às consequências da ditadura no país, e com a busca do livro do Paraguai, que me colocou frente a frente com as consequências de um regime que silenciou os artistas e a produção literária no país.

Não podemos negar esse período negro da história do continente. Falar disso – sentir isso – é um processo de redenção e homenagem a nossa liberdade política.

Algumas frases fortes de Tessa me transportaram para os dias de uma Montevidéu sitiada, onde um povo sofria e era silenciado. “Cantava enquanto despejava o sangue do meu Uruguai nos esgotos de Montevidéu e ignorava meu pedido para parar“.

Que sirva de lição e memória, para que a gente dê muito valor aos direitos políticos que conquistamos e podemos exercer.

Uma história de amor e de amizade: tão doce quanto idealista

Acho que Tessa Bridal foi brilhante em tudo. Inclusive na quantidade de romance a colocar no A Árvore das Estrelas Vermelhas.

Um amor na medida certa para ser encantador, sem ser meloso ou enjoativo. Torci pela felicidade de Magda e seu amor, e juro que o final surpreendeu: amargo e doce, como só os grandes amores sabem ser.

A amizade também é palavra chave no livro, e é difícil definir qual dos dois sentimentos é mais relevante para a vida de Magda. Acho que essa resposta nem a Magda saberia nos dar.

Esse foi o romance de estréia de Tessa Bridal, que ela emplacou logo com prêmio Milkweed de ficção. Mais que justo, na minha opinião. Pela riqueza de detalhes, paralelos entre o real e o ficcional, profundidade da trama e perfeita caracterização dos personagens. Um conjunto de fatores que acaba nos envolvendo completamente.

O Uruguai é um país que eu gosto muito, e os uruguaios são um povo que me encantou desde o primeiro contato.

Foi muito bom conhecer esse pedaço da história do país. Cada vez mais sinto que sulamericano é isso aí: um povo que não se conforma com as injustiças e busca lutar pelos seus ideias.

Sem méritos políticos de certo e errado, acho que nada nos define melhor que isso.

“Lembre-se, compañera, a vida não vale a pena ser vivida sem uma causa pela qual valha a pena morrer”.

Gostou da resenha? Compre o livro!

O blog Fui Ser Viajante é parceiro da Amazon! Você pode comprar o livro A Árvore Das Estrelas Vermelhas, de Tessa Bridal. Viaje com a gente nessa volta ao mundo na literatura escrita por mulheres!

Lila Cassemiro
Pernambucana, contadora de histórias e bem curiosa. Geminiana apaixonada por artes e culturas, sempre com a mala pronta pra viajar de novo. Eu gosto de gente.
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Comentários:
Monique disse:

Olá, muito legal essa resenha, gostaria de saber se no Legendi Mundo vocês encontraram um texto sobre mulheres viajantes nesses países, com protagonistas que narravam alguma viagem que realizaram dentro de seus países ou fora.

Klécia disse:

Oi Monique! Tudo bem? Alguns livros mostraram viagens de suas protagonistas. Por exemplo Portugal, Desamparo (Ines Pedrosa) conta a vida da protagonista portuguesa que veio ao Brasil ainda criança e depois volta a sua terra natal. Esse ainda não tenho resenha aqui no blog, sai em breve. Já Paraguai tem lindas histórias de uma mulher que viajou todo o país para reconectar filhos e suas mães biológicas. São apenas alguns exemplos, mas tem sim muitas mulheres viajantes pelas histórias do projeto 🙂

Ruthia disse:

É uma delícia quando um autor nos agarra pela alma e nos lança no meio da trama. Aquele momento quando o livro termina, aquela vertigem, aquele momento em que não nos lembramos de quem somos ou onde estamos, como se por uns segundos alguém nos roubasse a identidade. É uma das emoções mais maravilhosas do mundo. Se, a somar a isso, ainda nos ensinam um pouco de história… que mais podemos pedir?
Há alguns temas que são muito fortes, mas é importante que inspirem a arte, para que não nos esqueçamos, para que demos valor ao que temos como garantido, e não repitamos os erros da História.

Beijinho Klécia, lindas leituras por aí.

Klécia disse:

Você sintetizou perfeitamente bem, Ruthia. É preciso lembrar sempre. Ainda bem que tem gente nos proporcionando formas de arte tão belas, para que essa lembrança não seja só dor, mas inspiração. 🙂
Beijos e sempre agradecida pelos seus comentários por aqui!