[Legendi Mundi] Argentina: As coisas que perdemos no fogo

As coisas que perdemos no fogo de Mariana Enriquez não foi minha primeira escolha para a Argentina. Eu tinha comprado um exemplar de Yporã, de Glória Casañas.

Mas por conta do meu espanhol básico, Yporã se tornou um livro bem difícil de ler. A linguagem é bem formal, fazendo referências a uma Argentina ainda indígena.

O sentimento de frustração tomou conta de mim, parecia que eu estava tentando ler o indianismo de José de Alencar, ‘pero en español’.

Emperrei nos primeiros capítulos, relutando em continuar por saber que eu levaria muito, muito tempo para terminar Yporã com meu nível atual de espanhol.

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Eu estava assim frustrada quando, por acaso, encontrei no Facebook o grupo #leiamulheres. Uma espécie de clube do livro, com encontros em várias partes do Brasil (e originalmente, do mundo).

No Rio de Janeiro, a próxima agenda é para o fim de novembro, e o livro da vez era o surpreendente, assustador e envolvente “As coisas que perdemos no fogo”, da jovem escritora argentina Mariana Enriquez.

Caiu como uma luva: conhecer o grupo #leiamulheres e me aventurar numa nova história argentina.

Comprei o livro e comecei a ler no mesmo dia. Devorei cada página, cheia de medo e ansiedade.

Não conseguia parar de ler os contos de Mariana, e acabei o livro com dois dias de leitura. Um achado: o grupo, o livro e o talento da jovem Mariana Enriquez.

Ficha técnica:

País: Argentina | Livro: As coisas que perdemos no fogo (original: Las cosas que perdimos en el fuego) | Autora: Mariana Enriquez (argentina, de Buenos Aires) | Idioma: Traduzido para português (tradução de José Geraldo Couto) | Publicação original: Editorial Anagrama, 2016 | Publicação no Brasil: Editora Intríseca, 2017 | Tipo de literatura: Conto argentino, terror | Onde se passa a história: Províncias da Argentina e principalmente periferia de Buenos Aires.

Um livro para a Argentina: As coisas que perdemos no fogo

Eu agarrei “As coisas que perdemos no fogo” e folheei pra sentir o livro. Eu tenho essa coisa de primeiro fazer uma identificação física com a obra. Cheiro, cor, espessura das páginas.

Notei as páginas negras que separavam as amarelas de quando em quando. Foi quando percebi que “As coisas que perdemos no fogo” era um livro de contos, doze no total.

Nessa altura, eu ainda não tinha a menor ideia de que se tratava de um livro de terror. Comecei a ler e fui envolvida pela fluidez magnética da escrita de Mariana.

Eu sou um pouquinho assustada, e o medo foi crescendo, mas quem disse que eu conseguia parar?

Por sorte os contos eram curtos, então cada vez que o medo ficava maior, ou a história mais negra, chegava o fim de mais um conto. Dava pra respirar.

Por outro lado, cada conto acabava com um suspense, e a imaginação rola solta para imaginar qual o final dos seus personagens assombrados de Mariana Enriquez.

11 mulheres protagonistas e um homem pra representar

Conto após conto, fui percebendo um padrão. O personagem principal era sempre uma mulher: jovem, comum, com uma história de vida que podia ser a minha ou a sua.

Tinha tudo pra ser uma vida normal, até que não é mais. Até que tudo fica macabro, assustador. Temas cotidianos entram em cena. Violência doméstica, desaparecimentos, drogas.

As histórias de terror de Mariana Enriquez brincam com temas do cotidiano, enquanto flertam com o sobrenatural. Será por isso que tudo ali parece tão real, tão passível de acontecer comigo ou com você?

Em apenas um dos contos (Pablito clavó um clavito: uma evocação do baixinho orelhudo), temos um homem como centro da narrativa: mas um homem que é atormentado por uma mulher – e por outros fantasmas pessoais.

Teria sido proposital? Achei curioso um livro de terror, escrito por uma mulher, trazer uma absoluta maioria de vozes femininas para as cenas.

“As coisas que perdemos no fogo” me assustou um pouco mais a cada página. Mas, àquela altura, eu tinha sido capturada pelo sobrenatural de Mariana Enriquez.

O que aconteceria em seguida? As histórias me embrulhavam o estômago e me atraiam de uma maneira irresistível. Sem perceber, estamos lendo o conto e inconscientemente checando as sombras por cima do ombro, antes de virar para a página seguinte.

Viajando pela Argentina de Mariana Enriquez

Mariana nasceu em Buenos Aires, em 1973. Poucos anos para uma literatura tão intensa. E a sua nacionalidade está retratada nos doze contos que se passam no cotidiano dos argentinos.

Mas esqueça a Argentina dos cafés, do tango e dos edifícios glamurosos da Avenida de Mayo. Vamos viajar mais fundo, para lugares que, como turistas, dificilmente visitamos.

Uma vez, viajamos até Corrientes, para de lá ir fazer compras de renda no Paraguai. Outras vezes, somos levados para bairros da periferia de Buenos Aires, com criminalidade, casas abandonadas, sincretismo religioso, pobreza e conflitos políticos.

Por exemplo, no conto ‘A Casa de Adela’, é impossível não pensar que, enquanto uma menina desaparece sem explicação numa casa abandonada, centenas de argentinos desapareceram sem deixar rastros durante a ditadura.

Coincidência ou uma ficção de terror planejada para representar a Argentina real?

Peguei o mapa para estudar as histórias. Ver se conseguia identificar as praças, ruas e rios que apareciam nas histórias. E fiquei impressionada sobre o quanto fidedigna ela foi ao retratar o seu país.

O racionamento de energia de 1989, o tóxico Rio Riachuelo que corta Buenos Aires, os Festivais Chayeros, tradicionais na região de La Rioja, as ruas e a praça Garay do bairro de Constitución.

Uma Argentina que a gente não conhece, uma Argentina real que veio parar dentro da ficção de Mariana Enriquez.

As coisas que perdemos no fogo, o conto mais intenso

Os contos vão ficando cada vez mais ousados, mais profundos, mais sombrios. O último deles dá nome ao livro, e retrata mulheres que se rebelam contra agressões físicas que sofreram de seus parceiros.

Formando uma rede de colaboração, as mulheres começam a se auto-flagelar, queimando seus corpos em fogueiras. Uma releitura da queima de bruxas na Idade Média – mas aqui o objetivo não era matar, era marcar a pele.

Uma forma de protesto, que em pouco tempo se converteu em uma epidemia social. A epidemia das Mulheres Ardentes.

“As queimas são feitas pelos homens, menina. Sempre nos queimaram. Agora nós mesmas nos queimamos.
Mas não vamos morrer; vamos mostrar nossas cicatrizes.”

Posso dizer que o livro todo mexeu comigo, mas esse conto foi mais intenso que todos os outros.

Por tratar de uma maneira tão sombria e real a questão da violência doméstica, e pela “solução” encontrada pelas mulheres. Uma reflexão sobre retornar para a sociedade aquilo que dela foi recebido.

Ou de mostrar ao mundo as cicatrizes que antes apenas guardávamos escondidas pela vergonha, pelo medo.

Mariana Enriquez me fez tremer, suar e refletir. Eu, que não gosto de histórias de terror, me emocionei e sofri com Mariana e com essa Argentina marginal, que eu dificilmente iria conhecer sem a caneta da autora para me guiar.

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Lila Cassemiro
Pernambucana, contadora de histórias e bem curiosa. Geminiana apaixonada por artes e culturas, sempre com a mala pronta pra viajar de novo. Eu gosto de gente.
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Comentários:
Carla Sanches disse:

Estava pesquisando indicações de livros de mulheres e encontrei você. Estou lendo a resenha depois de ler o livro (não gosto de spoiler). Fiquei encantada, geralmente não leio contos, muito menos de terror, mas o livre é empolgante e me trouxe tantas reflexões. O sentimento mais marcante ao ler foi uma sensação de aceitação de acolhimento, me vi nas personagens e senti que eu podia ser a mulher que quisesse, e tudo bem!!! Só amor pela Mariana, pretendo ler outros livros dela e é claro continuar seguindo a trilha do Legendi Mundi. Gratidão

Klécia disse:

Oi Carla! Esse livro mexeu muito comigo também! E eu também não sou fã de contos, mas a imersão na cultura argentina e as personagens marcantes me pegaram de jeito. Espero que você continue acompanhando o projeto, conta pra gente quais outros livros você leu 🙂

Analuiza disse:

Eu não gosto de contos. Justamente pelo que você comenta: quando a história chega ao ápice ela simplesmente acaba! Contudo, você me deixou cheia de curiosidade por causa da intensidade com que você fala sobre o livro e por conta do impacto que ele te causou. Estou agora com vontade de ler tudo isso e me aventurar nos medos e no terror que autora cria. Até porque adoro uma boa história de mistérios. E esse tem elementos que me atraem: cotidiano com sobrenatural, mulheres como personagens principais e um passeio por uma Buenos Aires que não visitamos. Ou seja: quero muito mergulhar nas páginas de as coisas que perdemos no fogo!

Klécia disse:

Ana,
Contos também não são meu tipo favorito de Literatura, mas As coisas que perdemos no fogo me desafiou em tudo, e me fez valorizar muito a obra dessa argentina! E esse passeio pela argentina que não conhecemos me levou para o mapa, me levou para material de jornais. Me senti mais próxima de BsAs, mesmo que distante. Essa maravilha que só um livro pode fazer por você!