Chile: El Cuaderno de Maya

O Chile vem representado no Legendi Mundi com uma autora de peso na literatura mundial. O caderno de Maya é considerada uma das melhores obras de Isabel Allende – um dos grandes nomes da América Latina desde a década de 1980.

A sugestão do livro veio da Camila Lisboa, do blog O Melhor Mês do Ano, uma brasileira que resolveu morar no Chile e abrir um hostel – o La Minga Hostel – na pitoresca ilha de Chiloé.

A sugestão do livro pela Camila não foi aleatória. A maior parte de O Cuaderno de Maya se passa em Chiloé. A grande maravilha é que o livro dá destaque para as tradições, costumes e povo desse pedaço tão pouco explorado – e tão bonito – do Chile. Não teve outra: li o resumo e decidi quase imediatamente que ele seria o primeiro representante do Chile no Legendi Mundi.

Falo primeiro porque o Chile é um país bem grande, né? E tão diverso! Eu acho que cabem outros títulos, até porque El Cuaderno de Maya me levou principalmente para Chiloé. Se tiver sugestão de um bom livro escrito por uma autora chilena, deixa pra mim a sugestão nos comentários? 🙂

O livro veio comigo diretamente do Chile. Comprei numa livraria no centro de Santiago, perto do Palácio La Moneda, por 10000 pesos chilenos (setembro de 2017).

Era o único exemplar disponível e fiquei bem feliz de trazê-lo pra casa. Comecei a ler ainda no avião, no caminho de volta para o Brasil. Eram os últimos dias de setembro.

Foi uma leitura intensa e profunda – além de bem grande em suas quase 450 páginas. Levei um bom tempo pra terminar El Cuaderno de Maya.

Acabei lendo outros livros no meio do caminho, para poder respirar e entender bem a história. Respirava e voltava, vivendo os dias e as loucuras da vida junto com Maya, em Chiloé.

Ficha técnica:

País: Chile | Livro: El Cuaderno de Maya | Autora: Isabel Allende (peruana de nascimento, mas de nacionalidade chilena) | Idioma: Espanhol | Publicação original: Randon House Mondadori, 2011 | Tipo de literatura: Prosa, ficção | Onde se passa a história: principalmente Chiloé, mas também algumas cenas em Santiago do Chile, Califórnia, Las Vegas e citação a vários outros destinos, como Brasil.

Um livro para o Chile: O Caderno de Maya

Quatrocentos e quarenta e duas páginas de reviravoltas. Isabel Allende é daquelas escritoras que sabem envolver o leitor. A vida de Maya Vidal, desde os primeiros anos, foi uma sequência de eventos desafiadores.

Como nunca chegou realmente a conhecer sua mãe, fantasiava que a mulher que a abandonou era uma princesa na Lapônia.

Seu pai, um piloto que estava repetidamente ausente, perdeu os melhores momentos do crescimento da filha pelo excesso de trabalho e namoradas.

Maya cresceu com seus avós, que lhe propiciaram uma das melhores infâncias que alguém pode querer.

Dois caracteres marcantes, cada um a sua maneira. Influenciaram Maya das mais diversas formas. E foi justamente a perda do avô que mudou o curso da vida de Maya.

Toda a trama se desenrola a partir da desestabilização emocional que a menina passa a viver: amizades erradas, o prazer em desafiar as leis pelo simples prazer de transgredir regras, sumiços, álcool, sexo e por fim drogas.

Leia também: [ Legendi Mundi ] Paraguai: Historias ocultas de mujeres paraguayas

Maya se perde no mundo e se envolve em tudo de mais louco que pode acontecer a uma garota de quase 20 anos: prostituição, tráfico de drogas, vícios e falsificação de dinheiro.

A loucura é tanta que a garota viciada e destruída começa a ser procurada pelo FBI. Por golpes de sorte do destino, a família a encontra e a manda para viver em Chiloé, junto a um conhecido que oferecia refúgio e proteção.

O livro acontece durante esse ano da vida de Maya Vidal: vivendo em Chiloé, aprendendo os costumes de um povo cheio de tradições e crenças, enquanto procura curar a si mesma de uma vida desregrada.

El Cuaderno de Maya - Isabel Allende - Chile - Legendi Mundi

O caderno de Maya: notas de passado e presente

Mas não pense que a história segue a linha de tempo tradicional, de começo – meio – e – fim. Começamos com uma Maya perturbada e cheia de problemas, embarcando para Chiloé no verão dos seus 19 anos.

As primeiras páginas trazem os conflitos da mudança, da adaptação. Só depois somos apresentados aos problemas que levaram à medida drástica do exílio em Chiloé.

A avó de Maya lhe entrega um caderno, que ela leva para Chiloé e utiliza como diário, relembrando o passado e explicando o presente.

No caderno, as notas de um ano inteiro, de janeiro a dezembro. As memórias de tantos anos, pessoas, aventuras e loucuras. A gente conhece Maya pelo seu caderno.

Entende a confusão que ela se meteu e é impossível não amá-la mesmo assim. Seu caráter forte, marcante, impulsivo, que sempre procurou respirar na superfície, apesar da vida repetidamente tentar afogá-la.

Chiloé: um paraíso de isolamento e ressurreição

Maya chegou destruída em Chiloé. Parcialmente recuperada dos males que causou ao seu corpo, mas durante golpeada na alma e coração. A pitoresca ilha de Chiloé vem trazer o silêncio e a reflexão necessárias para a cura.

Vem ensinar Maya a confiar nas pessoas e nas relações puras e sem interesse. Vem ensinar sobre as tradições tão bonitas de um povo tão diferente e isolado do resto do mundo.

É impossível nao desenhar a geografia de Chiloé com os relatos detalhistas de Maya. O livro é daqueles ricos em informação. A gente consegue imaginar exatamente como é a casa de Manuel, que acolhe Maya. Como é a vila onde moram, as relações entre as pessoas e as paisagens da ilha.

Alguns personagens tiveram sua história impactada pela ditadura no Chile, iniciada em 1973. Os marcos da tenebrosa época do general Augusto Pinochet são retratados no livro, como um lembrete ao que não pode se repetir.

Ou mesmo como uma ode ao primo da autora, Salvador Allende, uma das primeiras vítimas do golpe militar (Allende se suicidou ao vislumbrar os primeiros momentos do golpe ao seu governo).

Fala-se ainda, com menos intensidade e com bastante admiração, da política de Michelle Bachelet, primeira presidente mulher do Chile, que governava na época do exílio de Maya em Chiloé.

Um pouco sobre Isabel Allende

Isabel é natural de Lima, Peru, mas tem nacionalidade chilena e é radicada nos Estados Unidos.

Filha de um diplomata, primo do ex-presidente chileno Salvador Allende, teve a vida marcada pela relação de sua família com o Chile. Isso exerce grande influência em sua obra.

Ficou mundialmente conhecida por seu primeiro livro, A Casa dos Espíritos (1982), mas El Cuaderno de Maya também é reconhecido como uma de suas melhores obras.

Em El Cuaderno de Maya, Isabel dá grande espaço para relatos sobre os horrores da ditadura chilena. Descreve também costumes, superstições e tradições dos chilotes – mas percebi alguma crítica em suas falas.

Percebi, algumas vezes, uma discreta desvalorização do físico e dos costumes do povo da ilha. Será influência da vida americana da autora, ou um caracter um tanto quanto preconceituoso que ela quis imprimir em Maya?

Como quando Maya visita a mãe escandinava e revela:

meu aspecto foi um secreto alívio para minha mãe, porque eu não apresentava evidência dos gens latino-americanos do meu pai e num aperto poderia passar por escandinava.” (Trecho de El Cuaderno de Maya, em tradução livre). 

O conflito de Maya com as drogas também tem inspiração na vida pessoal de Isabel Allende. Por mais de 20 anos, a autora viveu dentro de casa um conflito com os três filhos. O mais velho foi preso por porte de drogas.

O mais novo foi paciente frequente de clínicas de reabilitação. A filha do meio, Jennifer, morreu aos 28 anos,  “depois de ter usado tudo o que existia”.

Durante todos os anos de luta, Isabel anotou suas memórias em um caderninho. Qualquer semelhança com essa obra de ficção não tem nada de coincidência. El Cuaderno de Maya é fruto direto desse drama pessoal.

Valorização de costumes e tradições de Chiloé

Por outro lado, achei essencial Isabel Allende descrever em detalhes os rituais e costumes de um povo que a gente pouco conhece. Isso conta muito para a valorização da cultura. 

Fiquei cheia de curiosidade por conhecer Chiloé durante uma das festas tradicionais da ilha (embora Maya fale que, muitas vezes, elas são planejadas exatamente como um chama-turistas, para movimentar economicamente Chiloé).

“As trocas são parte essencial da economia dessas ilhas., se trocam peixes por batatas, pão por madeira, frangos por coelhos, e muitos serviços se pagam com produtos. (…) Ninguém põe preços nas coisas, mas todos sabem o valor justo e levam isso em conta na memória”. (Trecho de El Cuaderno de Maya, em tradução livre).

El Cuaderno de Maya: minha opinião

El Cuaderno de Maya - Isabel Allende - Chile - Legendi Mundi

Mais um livro do Legendi Mundi onde o personagem principal é uma mulher. Isso aconteceu também na Argentina e no Paraguai, lembram? Acho que as mulheres gostam de escrever e dar voz a outras mulheres!

Isabel conecta com muita riqueza o passado e o presente. Eles caminham de mãos dadas em El Cuaderno de Maya. A mudança de ambientes é frequente – talvez com um elo fraco em alguns momentos. Por vezes, era preciso voltar e reler algumas linhas, para saber sobre qual época estávamos falando.

Maya é intensa em tudo que faz e sente. Isso talvez tenha sido sua danação e salvação. A trama foi cuidadosamente planejada por Isabel Allende, para que os segredos se revelassem aos poucos. Somente nas últimas páginas do livro é que tudo se esclarece.

É impossível abandonar a obra, embora eu não tenha sentido nenhuma urgência na leitura. A gente se envolve nos detalhes da narrativa, mas não se apaixona perdidamente pelo Caderno de Maya.

Nasce um amor perene, calmo e seguro de si pela história dessa menina. A gente não consegue abandonar o caderno até chegar à última página.

Recomendo muito para que gosta de narrativas intensas e bem estruturadas, e para quem quer aprender sobre costumes e cultura da ilha de Chiloé.

Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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Comentários:

Jurei que já tinha comentado aqui 🙁 Eu amo esse livro – tanto pela historia quanto pela paisagem… Li depois que me mudei pra Chiloé! Me animei tanto que acho que vou reler 😉