Paraguai: Historias ocultas de mujeres paraguayas

Vocês não tem noção da alegria de finalmente estar escrevendo o post sobre ‘Historias ocultas de mujeres paraguayas’, o livro que representa o Paraguai no Legendi Mundi. Deu trabalho encontrar um título, viu? Por mais que eu procurasse, eu não encontrava aqui no Brasil nenhum livro escrito por mulheres paraguaias e publicado nos últimos anos. Olhei na internet e nada. Pedi para a Ana, do blog Espiando pelo Mundo, dar uma olhada nas livrarias da Argentina, sem sucesso. Nenhum título.

O Paraguai, uma nação que ficou conhecida pela rica produção de poetas sulamericanos, sofreu um duro golpe com a ditadura, que silenciou e exilou artistas do país. Comecei a pesquisar nos sites paraguaios, procurando notícias sobre escritoras e suas obras. E foi depois de alguns e-mails e muita pesquisa, que consegui o contato de uma editora do país, a Servilibro, e comprei o livro ‘Historias ocultas de mujeres paraguayas’, empolgada com o achado e com o resumo da obra.

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Mas a saga para estar com esse livro em mãos não acabou por aí. Foram longos meses esperando o correio entregar a encomenda de Asunción aqui em casa. Tantos meses que eu acreditei que meu livro tinha se perdido entre uma fronteira e outra. Foram cerca de 50 dias úteis, até que eu nem esperava mais. E por isso, nada paga a surpresa de chegar em casa e encontrar ‘Historias ocultas de mujeres paraguayas’ me esperando na caixinha de correio.

Ficha técnica:

País: Paraguai | Livro: Historias ocultas de mujeres paraguayas – Testimonios de Felicia Barrios | Autora: Galia Giménez Guimpelevich (paraguaia, de Asunción) | Idioma: Espanhol | Publicação original: Servilibro, 2012 | Tipo de literatura: Testemunho, histórias reais | Onde se passa a história: Asunción e outras regiões do interior do Paraguai.

Um livro para o Paraguai: Historias ocultas de mujeres paraguayas – Testimonios de Felicia Barrios

O livro é curto, com pouco mais de 100 páginas, e traz 13 histórias. Li a versão original escrita em espanhol, mas a leitura é bem simples, e muito emocionante. As histórias são reais, contadas a partir do testemunho de Felicia Barrios, uma senhora que trabalhou por anos como assistente social no Paraguai, com uma grande experiência com crianças.

O cenário de todas as histórias tem uma coisa em comum. Uma criança paraguaia que foi adotada por pais americanos. Anos depois, essas crianças que cresceram sem saber nada sobre suas origens, seu povo ou a história de sua família, começam a questionar seus pais adotivos sobre onde estaria a sua mãe biológica e, principalmente, quais foram os motivos da adoção.

Nas curiosas voltas que a vida dá, essas crianças e suas famílias americanas cruzam o caminho de Felicia Barrios, que atravessa todo seu pequeno país para descobrir onde estão as “mães ocultas”. Com muita sensibilidade e bastante sorte, Felicia promove reencontros. Pais biológicos, pais de coração, pequenas crianças e jovens que nasceram no Paraguai mas que não sabem falar uma só palavra em espanhol. Não foram poucas vezes durante a leitura que me faltaram palavras para entender os mistérios da vida. Ou para agradecer pela persistência dessa mulher em ouvir e não desistir do objetivo maior: reunir pessoas.

13 mulheres paraguaias e o coração de Felicia Barrios

Cada capítulo leva o nome de uma mulher: a mãe que Felicia estava procurando. As jornadas nunca foram fáceis, já que quase sempre tudo que ela tinha era o nome da mãe biológica e uma pequena referência territorial, de onde a criança havia sido registrada. Muitas vezes ela esteve quase a ponto de desistir. E era exatamente nesse momento que a sorte virava, e de repente o caminho da busca se iluminava. Aprendi com as histórias que a persistência tem que vir acompanhada de sorte também, mas que as coisas acabam dando certo quando o propósito é nobre.

“Há que se ter sensibilidade e ao mesmo tempo muita fortaleza para lidar com tudo isso. (…) Felicia Barrios se converteu, nesses 6 anos de trabalho, em uma expert na busca de pessoas, não só dentro de nosso país mas teve também que cruzar fronteiras.”

Uma reflexão sobre maternidade, adoção e nossa necessidade por saber nossas origens

Esse livro me colocou pensativa. Primeiro, porque a sensibilidade dessa narrativa tinha mesmo que ter sido escrita por uma mulher. Isso me deixou muito contente de estar no caminho certo com o Legendi Mundi. Ler livros escritos por mulheres desperta a gente pra uma nova forma de ver o mundo, uma perspectiva diferente.

Segundo, porque parei pra refletir sobre as dificuldades que uma mulher passa ao dar um filho para adoção. Como as circunstâncias da vida acabam determinando o desenrolar dos fatos, e como uma decisão pode marcar a sua vida pra sempre.

Terceiro, me impressionei com essas crianças que tinham uma vida tão organizada em um país tão diferente do Paraguai, e mesmo assim se mostraram curiosas por suas origens, por conhecer e conversar com suas mães. Em entender o processo que as levou para a adoção, e como elas amavam profundamente essas mães que nem sequer conheciam. Só pude concluir que vínculos de sangue são mesmo uma das coisas mais profundas que temos na vida.

As mulheres do Paraguai

O livro Historias ocultas de mujeres paraguayas nasceu como uma iniciativa conjunta do Ministério da Mulher do Paraguai, a Editora Servilibro e o Comitê de Equidade de Gênero da Usina Itaipu Binacional. A intenção do projeto é eliminar as formas de discriminação e dar maior visibilidade e participação à mulher na política, sociedade e cultura do Paraguai.

Achei a iniciativa muito válida. Ela se enquadra muito bem dentro da proposta que estamos tentando levantar com a bandeira do Legendi Mundi – que as mulheres produzam mais, que sejam mais lidas e mais ouvidas na nossa sociedade.

Com a obra, aprendi um bocado sobre o país de Felicia Barrios. Aprendi sobre quantas mulheres paraguaias precisam ir para a Argentina, trabalhar como empregadas domésticas. Aprendi que o povo paraguaio é acima de tudo, prestativo, independente da condição financeira. E que por lá também se repetem as histórias de mães solteiras, mulheres abandonadas, mulheres agredidas. Não pude deixar de me emocionar especialmente com a história de Aurora, uma das últimas a aparecer no livro. “Refleti sobre quão golpeada ela foi pela vida, sobre sua condição de sobrevivência, onde o sofrimento prevalece e a esperança não existe mais. Temos que fazer algo por nossas mulheres! – era o que retumbava em minha cabeça”.

Um livro para pensar sobre o papel e as oportunidades que são dados às mulheres no Paraguai, aqui no Brasil, no mundo todo. “Haverá mulheres parecidas com as da minha terra em outros lugares?, eu me perguntava. Certeza que sim!”. E o que a gente está fazendo pra mudar essa realidade?

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Historias ocultas de mujeres paraguayas - Legendi Mundi Paraguai

 

Lila Cassemiro
Pernambucana, contadora de histórias e bem curiosa. Geminiana apaixonada por artes e culturas, sempre com a mala pronta pra viajar de novo. Eu gosto de gente.
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Comentários:
Analuiza disse:

Klécia… ainda bem que, como Felícia, você não desistiu de sua busca e nos apresentou as Histórias Ocultas (…)… Uma temática forte. Deve ter sido emocionante seguir estas trajetórias.

Duas considerações: também acho que perseverança e sorte caminham juntas. Uma sem a outra não acontece. Li hoje, ou ontem, em algum lugar que quando estamos no caminho certo (perseverança) as coisas acontecem naturalmente (sorte) e todos os caminhos se abrem. Será?! Penso muito nestas coisas.

Segunda: como é delicada esta questão da adoção. Penso que se hoje descobrisse que era adotada se iria querer voltar a origem de tudo. Sempre pensei que não, mas nunca saberei. Pelo menos não nesta vida, mas o sangue deve ser uma questão forte, caso contrário tantos filhos adotados não empreenderiam estas buscas.

Muitas coisas para pensarmos. Livros que me desafiam, me atraem.

Por fim, que triste esta questão da produção paraguaia. Acompanhei sua busca e igualmente fiquei espantada por não encontrar em BUE nenhum livro paraguaio. Que um dia esta triste situação mude e que ainda possamos ler muitas obras produzidas no país, contando suas histórias. beijos e que o Legendi Mundi continue a me emocionar

Ruthia disse:

Klécia querida, acho que já tinha comentado algures como este seu projecto me sensibiliza. Visitar um país depois de conhecer alguma coisa da sua literatura, dá uma nova dimensão ao roteiro.
Nunca estive tanto tempo à espera de um livro. Imagino a emoção de o encontrar, finalmente, à sua espera, ainda mais com toda essa envolvência das histórias que conta. Acredito que alguns livros entram nas nossas vidas por um motivo. Porque será que esse estava destinado a chegar às suas mãos?
Que o exemplo de perseverança dessa autora nos inspire os passos.
Beijinho

Klécia disse:

Oi Ruthia,
Eu fico tão feliz quando leio que mais alguém se identifica com o projeto – ele mexe mesmo comigo, é uma causa que acredito muito e estou muito feliz em viajar o mundo pelas letras de mulheres tão incríveis!
Foi mesmo muito incrível ver o livro na minha porta! Eu já tinha lamentado tanto, que quase dava como perdido…
Eu estou firmemente acreditando que estou sendo escolhida pelos livros que estão participando do Legendi Mundi. Foram todos incríveis até agora, e todos me mostraram mulheres tão fortes como protagonistas – o que nem era a ideia inicial, eu apenas queria livros escritos por mulheres, mas parece que mulheres escrevem muito bem sobre mulheres, também. Agora você me colocou a pensar… porque será que esse livro, exatamente esse, caiu em minhas mãos? Vou com você, acreditar que preciso me inspirar cada vez mais na persistência de Felicia 🙂
Obrigada pelo gentil comentário! Beijos