Bolívia: Tardes de Chuva e Chocolate

Mulheres que escrevem sobre mulheres – essa está sendo a minha incrível jornada pelos livros de escritoras latino-americanas. Já me surpreendi, chorei, amei e sofri com a Maya de Isabel Allende (Chile), com a Magda de Tessa Bridal (Uruguai), com as mães de Galia Giménez (Paraguai) e as mulheres fortes e misteriosas de Mariana Enriquez (Argentina). Foram muitas emoções diferentes e uma constante: as mulheres fortes que cada uma dessas escritoras me apresentou. No quinto livro do projeto Legendi Mundi, eu embarquei para a Bolívia, com Tardes de Chuva e Chocolate, de Amalia Decker. E adivinhem o que eu descobri pelas páginas da Bolívia de Amalia??

Uma família inteira de mulheres que assumem o papel principal: na narrativa e na vida!

O Legendi Mundi é um projeto de volta ao mundo literária, com livros escritos por mulheres. Leia mais sobre o projeto aqui e veja todas as resenhas dos livros participantes aqui.

Tardes de Chuva e Chocolate: Um livro para a Bolívia no Legendi Mundi

Como o Legendi Mundi nasceu bem na época que a gente estava viajando de mochilão pela América do Sul, em setembro de 2017, decidi comprar um título para a Bolívia quando a gente passasse por La Paz. No dia que estávamos passeando pelo centro da cidade, eu comecei a procurar uma livraria e veio a surpresa:

Cadê as livrarias de La Paz?

Eu olhava nas ruas, pesquisava na internet e nada. Achava um endereço, andava até lá pra descobrir que era mais uma papelaria que uma livraria. Achava outro endereço, que indicava uma antiga livraria que hoje já não existe mais. Foram algumas horas andando pelas ruas procurando e perguntando onde estavam as livrarias na Bolívia. Quanto mais eu andava, mais triste eu ficava.

Já imaginou um mundo sem livrarias? Sem a sensação boa de entrar naquelas bem grandes e ficar cercado de livros por toda parte? Aquele cheiro de papel novinho, esperando pra ser folheado? Em cada novo país que o Legendi Mundi me leva, eu vejo o peso que as ditaduras na América do Sul tiveram sobre a produção literária de cada povo. E na Bolívia, parece que a recuperação vem sendo bem lenta. E se um povo não tem fácil acesso aos livros – e ao conhecimento, dá pra ficar bem preocupado sobre para onde as coisas vão caminhar.

Mas depois de muito insistir, achamos uma pequena livraria em La Paz. Perguntei pelos livros de escritores bolivianos, e ele me apresentou uma prateleira bem pequena, bem no canto da loja. Pra minha tristeza, nenhuma escritora por lá, só homens. Minha busca ainda não tinha acabado. Mais andanças e enfim apareceu outra livraria, bem pequena. Lá dentro, só um senhor que parecia ser o dono e o faz-tudo do lugar. Perguntei pelos livros bolivianos – e agora a estante que ele me apresentou era um pouco maior. E lá achei os dois títulos de Amalia Decker: seu romance de estréia, Carmela, e sua segunda novela, Tardes de Chuva e Chocolate. E foi uma das poucas vezes que escolhi um livro pela capa. Achei tão bonita que fiquei curiosa para descobrir o que contavam aquelas páginas!

Tardes de Chuva e Chocolate - Um livro para a Bolívia no Legendi Mundi

Ficha técnica:

País: Bolívia | Livro: Tardes de Chuva e Chocolate | Autora: Amalia Decker (nasceu e cresceu no Bolívia) | Idioma: Espanhol | Publicação: Grupo Editorial Kipus, 2015 | Tipo de literatura: Prosa, ficção | Onde se passa a história: Bolívia, especialmente Cochabamba e La Paz (e alguns capítulos na Europa). Século XX.

Entre a Bolívia das revoluções e a Europa das guerras

O livro conta a saga de um casal de imigrantes italianos, que chega na Bolívia para tentar melhorar a vida. Compram um terreno enorme por quase nada, e aos poucos passam de miseráveis na Itália a latifundiários na Bolívia. A bisneta Fiore narra a história em primeira pessoa, contando o que viu e viveu, bem como todas as histórias de família que ouviu ao longo dos anos. Filhas, netas e bisnetas que foram nascendo na Bolívia ao longo do século XX. Em cada geração, cresceram mulheres fortes, senhoras dos próprios destinos. Umas tomaram conta da narrativa, se destacando por sua personalidade, amores ou sofrimentos. Outras passam mais despercebidas, sendo citadas só aqui e ali. Mas nem assim são personagens do acaso, porque cedo ou tarde acabam assumindo uma posição de destaque em algum momento da trama de Adelia Decker.

Como lemos no próprio livro, “Eu creio que a natureza é sábia. Tu vês que não há homens nessa família, todas pariram somente mulheres e me atrevo a dizer que todas têm sido e são especiais, incluindo as que não parecem”.

A história das mulheres da família acompanha os acontecimentos revolucionários da Bolívia do século passado: Revolução de 52 (que instituiu o voto universal e reforma agrária na Bolívia), ditadura, prisões e torturas. Ao mesmo tempo, faz um paralelo com a história do mundo, com uma personagem que se muda para a Europa e acompanha os horários da guerra. Isso vem sendo outra constante nos livros do Legendi Mundi até agora: muitas relações com a confusa política sul-americana do século XX!

O desenrolar da narrativa

Eu não cheguei a me apaixonar pela narrativa de Amalia. Achei que o livro demorou a engrenar. A autora transita muitas vezes entre presente e diferentes tempos do passado. Como se a narradora Fiori estivesse mesmo perdida em pensamentos e memórias. Algumas vezes foi difícil acompanhar. Inicialmente, também fiquei um pouco confusa com tantos nomes parecidos na família. A bisavó deu seu nome pra avó, e isso muitas vezes me fez parar e voltar para entender de quem a história estava tratando.

Mais perto da metade da história, me acostumei com a narrativa de Amalia. Até comecei a me identificar com alguns personagens. Isso aumentou meu gosto pela história. Posso dizer que acabei gostando muito de algumas personagens – a própria Fiore, que do começo ao fim do livro vem descobrindo como sua vida pode existir longe de um casamento sem amor. Também sua vó Victoria Francesca, que a história converte de uma latifundiária de práticas escravocratas para uma fora-da-lei que abriga e esconde jovens revolucionários. A imponente e rica senhora muitas vezes é mostrada no seu cotidiano, com dores e frustrações. Isso quebra muito da impressão que teríamos se olhássemos apenas para a latifundiária que ‘explorava’ os trabalhadores da fazenda Pusa-Pusa.

cotidianidad, sus anhelos, sus retos, conversiones y la construcción de falsos abolengos, pero sobre todo muestra los inmensos cambios de formas de vida que tuvieron que soportar en pocas generaciones”.

As mulheres de Amalia crescem, mudam, amadurecem. Amam, sofrem, têm desejos sexuais intensos e secretos, que fazem questão de satisfazer ao longo das tardes de chuva e chocolate. Sonham, fazem birra, se mostram muito fortes – daquele jeito típico de quem quer afastar para se proteger de novas dores de amor. O amor, as relações familiares e a força são o centro da vida das mulheres da família. Um livro feminino, quente, intenso e político, como só uma história sul-americana sabe ser. Um livro que me ensinou muito sobre essa Bolívia dentro de um dia-a-dia de uma revolução, e sobre o papel dos imigrantes europeus na constituição da sociedade nesse Novo Mundo.

Tardes de Chuva e Chocolate - Um livro para a Bolívia no Legendi Mundi

Um pouco da autora: Amalia Decker

Amalia Decker nasceu em Cochabamba. Viveu na Bolívia como jornalista até ser exilada para o México com 17 anos, durante a ditadura de 1980, por militar na guerrilha de Che Guevara. Com a restituição da democracia em 1982, retornou para La Paz. Reside lá até hoje, escrevendo para vários meios de imprensa.

Amalia é uma das poucas escritoras bolivianas que alcançou expressão internacional. Tardes de Chuva e Chocolate, por exemplo, foi traduzido para português e italiano. A própria autora admite que “a Bolívia é um país complicado, com muitas dificuldades, onde a literatura não é uma prioridade”, e “não há políticas a nível do Estado que promovam a literatura”.

Ao mesmo tempo, acho incrível que a autora consiga fazer um paralelo tão interessante entre uma história de ficção e a realidade política do seu país e do mundo. Tardes de Chuva e Chocolate é um livro sobre mulheres – sua força e seus amores. É um livro sobre imigração – e as várias faces de encarar uma nova vida tão longe da terra natal. É um livro sobre a Bolívia – seu povo, origens e revoluções.

Um livro que vale a pena ler. Não só pela narrativa, mas pela perspectiva político-social que a obra oferece sobre a Bolívia do século XX. Tardes de Chuva e Chocolate acabou me surpreendendo e me mostrando essa Bolívia de transformações e surpresas. Como diz a própria Amalia, “Na Bolívia, a eternidade dura um segundo”, e “a realidade latino-americana ultrapassa sempre a ficção”.

Você pode ver mais sobre esse depoimento de Amalia Decker aqui.

 

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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Comentários:
Loretta disse:

Olá, Klécia (: Que rico o seu projeto, estou muito apaixonada! Estou nesse momento em Lá Paz fazendo um mochilao pela América do Sul e também pesquisando os autores de cada país, estou encantada com todas essas culturas. Ao buscar na internet autores bolivianos para ir em busca de seus livros por aqui, tive a enorme sorte de encontrar teu site. Vou acompanhar teu site e dicas das autoras e me aprofundar mais, não deixe de escrever e compartilhar, temos que espalhar toda essa rica cultura que temos em nosso continente e deixarmos de ser tão desconectados de nossos hermanos e hermanas ❤
Obs: encontrei muitas livrarias, cebos e pessoas vendendo livros nas ruas em Lá Paz. Todas as livrarias que encontrei estão dentro dos mercados (não tenho certeza se há em todos mas nos que tem, tem muitas lojas)

Klécia disse:

Oi Loretta, que bom que gostou! É o projeto do meu coração! Eu agora estou viajando por isso as postagens pararam um pouco, mas quando eu voltar já vou atualizar os novos livros lidos ah que alegria ouvir que você encontrou livrarias, eu fiquei meio assustada no dia com o tanto que tive que andar pra achar uma! Vai ver era só o lado da cidade que eu estava… Melhor assim, mais cultura pra todos ☺️ obrigada pelo comentário, me deixou bem feliz!

Klécia disse:

Oi Ruthia,
Parece-me que o livro foi traduzido e publicado ai em Portugal, mas não aqui no Brasil. A capa ficou mesmo muito linda nessa versão!
Meu coração fica muito triste quando lembro da realidade da Bolivia e a escassez de livrarias. Não poderia imaginar minha vida sem elas. Engracado porque essa semana mesmo li um texto sobre livrarias clássicas fechando as portas em portugal. Uma pena, mas o mesmo acontece pelo mundo, eu acho. Por aqui, as pequenas somem e as grandes estão tomando conta de tudo. Nossos pequenos tesouros vão sumindo.
Sobre livreiros, minha opinião é que eles são os maiores de todos os contadores de histórias! 🙂

Ruthia disse:

Nunca tinha ouvido falar dessa autora, mas gosto tanto de personagens femininas fortes que fui pesquisar e descobri que o livro também está à venda em Portugal, e com uma capa muito bonita também (https://www.wook.pt/livro/tardes-de-chuva-e-chocolate-amalia-decker-marquez/1457425).
É não só triste mas assustador imaginar o mundo sem livrarias. Infelizmente, a maioria das livrarias históricas fecha portas, não consegue competir com as grandes cadeias livreiras que, apesar de terem uma oferta maior, é mais massiva, aposta nos best-sellers da moda e e demite de qualquer função educadora. Porque, no mundo ideal, um livreiro é também uma espécie de educador literário, não concorda?
Beijinho, um lindo domingo