Um dia em Santa Teresa: um roteiro de história e boemia no Rio de Janeiro

O bairro de Santa Teresa no Rio de Janeiro é a menina dos olhos do carioca que tem uma quedinha pelo lado cultural-boêmio da cidade. 

O cenário é bucólico, porém intenso. A ocupação do bairro, incrustado num morro entre o Centro e a Zona Sul da cidade, teve início com a criação de um convento dedicado a Santa Teresinha, no século XVIII. Desde então, o bairro já foi área nobre, já foi abandonado e já foi revitalizado.

Hoje, Santa Teresa é uma mistura de tudo: museus, bons restaurantes, casas de samba, hostels com festas badaladas e muito ateliê de artistas da cidade.

O charmoso bondinho, inaugurado em 1872, permanece circulando pelas ruas como um símbolo de um passado que insiste em ficar. 

Os casarões históricos testemunham gente de todo tipo, subindo e descendo as ruas de paralelepípedo, e abrem espaço vez ou outra para que a gente possa admirar a beleza da cidade do Rio vista lá de cima. 

Acho que é exatamente essa mistura do nostálgico com o burburinho que me atrai. Santa Teresa parece pertencer a um Rio que não conheci pessoalmente, o Rio que li nos livros de Machado de Assis.

Mas isso tudo parece sair da literatura e vibrar nas ruas, nas ladeiras. Pelo menos uma vez, Santa Teresa merece uma visita de todo mundo que vem ao Rio.

O que fazer em Santa Teresa – roteiro de 1 dia

Escadaria Selarón

O passeio começa na Lapa, ali pertinho dos famosos Arcos. Sou capaz de apostar que você já viu por aí alguma foto da multi-colorida Escadaria do Convento de Santa Teresa, ou Escadaria Selarón, como é mais conhecida.

A escadaria fica na rua Manoel Carneiro e liga a Rua Joaquim Silva, na Lapa, à Ladeira de Santa Teresa.

A escadaria é a principal obra do pintor e ceramista chileno Jorge Selarón, que depois de conhecer o mundo acabou vindo morar no Rio, ali pertinho da escadaria.

Selarón passou a revitalizar a área, primeiro com banheiras ajardinadas nas calçadas e depois com os azulejos que hoje decoram os 215 degraus da escadaria.

A obra começou a ficar famosa e, aos poucos, começaram a chegar azulejos enviados de todo o mundo para decorar os degraus da Selarón, que se tornaria uma obra mutante, em constante transformação até a morte do artista – que morreu na própria escadaria – em 2013.

Os degraus são muitos, mas você não vai subir de uma vez. Vai parar repetidas vezes para admirar as cores, a origem, as referências culturais – além de tirar muitas fotos.

Escadaria Selarón - Santa Teresa

Parque das Ruínas

Fica a mais ou menos 650m. da Escadaria Selarón e esse é possivelmente o lugar que mais amo no Rio de Janeiro.

O prédio é história pura. Nele morou Laurinda dos Santos Lobo, uma dama da sociedade carioca, herdeira de uma rica e poderosa família.

Laurinda foi uma grande incentivadora das artes e em sua mansão, todas as noites, aconteciam reuniões de intelectuais e artistas que estavam na cidade – aconteceu um tipo de Belle Époque carioca na década de 1920.

Todo o Modernismo Brasileiro se encontrava por ali. Villa-Lobos e Tarsila do Amaral eram presenças frequentes. Aqueles salões testemunharam transformações artísticas e políticas na história do Brasil.

O prédio passou um tempo abandonado, mas foi revitalizado a partir de 1993. Desde então, o Centro Cultural Municipal Parque das Ruínas vem funcionando no casarão histórico.

Eu não consigo entrar no Parque das Ruínas sem imaginar tudo que foi conversado por aqueles salões. Sou apaixonada pela energia do lugar. Além disso, a arquitetura e a vista do Rio são maravilhosas. O local conta com exposições e tem uma pequena lanchonete.

Museu Chácara do Céu

Fica bem ao lado do Parque das Ruínas. Na verdade, existe uma passarela que liga essas duas atrações. A Chácara do Céu é um dos museus Castro Maya (o segundo é o Museu do Açude, também no Rio).

O casarão que hoje abriga o museu foi, anteriormente, a residência do próprio Castro Maya. O empresário tinha duas grandes paixões na vida: colecionar e incentivar a arte, especialmente a brasileira.

O acervo permanente do museu, em sua maioria, pertenceu a Castro Maya. As exposições permanentes estão divididas em três sessões: no hall de entrada (entrada franca) encontra-se a recepção, loja e parte da coleção de arte brasileira.

Para acessar as demais áreas, paga-se R$2,00. O segundo piso é destinado a arte européia e parte da coleção de arte oriental.

Além disso, estão preservados os ambientes da antiga Biblioteca e da Sala de Jantar, onde podemos ver peças de mobiliário, peças decorativas e livros raros. No Jardim de Inverno da casa, podemos conferir as exposições temporárias.

No terceiro piso estão as telas da coleção Brasiliana e peças de mobiliário brasileiro, incluindo uma seleção do acervo de arte popular. A casa por si só é uma atração. Pra completar, de lá dá pra ter uma visão maravilhosa da Baía de Guanabara.

Ateliês, casarões históricos e mirantes

Santa Teresa tem uma surpresa em cada esquina. Os ateliês são vários e valem a visita para apreciar as obras ou comprar alguma lembrancinha. Quase sempre você vai encontrar um artista pintando um quadro por lá.

Os prédios históricos valem várias fotos. Santa Teresa tem inclusive um antigo castelo – o Castelo Valentim, que tem uma arquitetura fantástica.

Além das lindas vistas da Chácara do Céu e do Parque das Ruínas, você ainda pode visitar o Mirante do Rato Molhado, que te dá mais uma panorâmica incrível da cidade do Rio.

Largo dos Guimarães e restaurantes

Na região do Largo dos Guimarães você vai encontrar a maior concentração de restaurantes em Santa Teresa.

Por ali funciona um verdadeiro pólo gastronômico. Você pode escolher um e aproveitar um bom pedaço de tarde entre conversas e comidinhas, enquanto assiste o movimento do bairro.

A gente indica o Portella, que tem uma feijoada muito boa no fim de semana. A Analuisa – do blog Espiando pelo Mundo – me recomendou a feijoada do Bar do Mineiro, que pretendo provar em breve 😀

Seguindo uma outra proposta, outros restaurantes de alta gastronomia encontraram lugar em Santa Teresa, como o Aprazível e o Térèze. A gente contou um pouco sobre nossa visita ao Aprazível aqui.

No Largo dos Guimarães fica ainda o histórico Cine Santa Teresa e o Mercado de Pulgas. O cine ainda está em atividade a apresenta um repertório de filmes cult de fazer inveja a muito cinema por aí.

O Mercado de Pulgas vem sendo cada vez mais procurado pelo Samba dos Guimarães, que acontece todos os sábados no local.

Bondinho de Santa Teresa

O Bondinho deve ser o símbolo mais emblemático do bairro. O trajeto original parte do Largo dos Guimarães, passa no Largo do Curvelo, sobre o Aqueduto da Lapa, até chegar no Largo da Carioca, no Centro.

A estação no Centro fica atrás do prédio da Petrobras, perto da estação Carioca e da Catedral do Rio.

Um acidente em 2011 interrompeu o funcionamento do bondinho. Em 2015, depois de revitalização, parte do percurso foi reinaugurado. O trajeto em uso hoje vai do Largo da Carioca até o Largo do Curvello.

O passeio é super legal: adorei ouvir a buzina do bonde, ver a paisagem lá de cima e passear por cima dos Arcos da Lapa! 😀

O funcionamento do bondinho é de segunda a sexta, das 6:30h às 16:15h, e sábados das 10h as 18h em intervalos de 20 minutos. Não são permitidos passageiros em pé e a capacidade máxima de cada bondinho é de 32 passageiros.

Desde Novembro de 2016, foi criada uma tarifa “turística” para uso do bondinho, cobrada apenas no embarque no Largo da Carioca, ter que desembolsar R$20,00 por pessoa para ir do Centro para Santa Teresa torna o passeio quase inviável, porém, o embarque no Largo do Guimarães na volta ao centro, permanece gratuito.

Moradores de Santa Teresa com cadastro na prefeitura, estudantes e idosos são isentos da taxa.

Seguindo o nosso roteiro, com a subida a pé e a descida pelo bondinho, a magia do passeio continua gratuita. 🙂

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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Comentários:

Oh! Que delícia voltar a Santa Teresa através desse texto! Me senti lá, andando novamente de bondinho e perambulando por todos esses lugares que considero os mais interessantes do Rio… Justamente essa sensação de volta a um passado que não vivi, essa atmosfera boêmia antiga é o que eu acho que tanto me atrai nessa região. Um prazer esse post e ver as fotos!beijos Ana. P.S. Obrigada pela referência. Quero muito ver o Bar do Mineiro aqui no Fui Ser Viajante. 🙂

Klécia disse:

Ana, sempre bom encontrar seus comentários por aqui! Santa Teresa é mesmo um amor que temos em comum! Quem sabe um dia você passe pelo Rio e a gente se encontre por lá? Qualquer dia desses vou lá no Bar do Mineiro provar aquela feijuca! 😀