Nosso norte é o Sul: a América do Sul de Joaquim Torres Garcia

Desde a primeira vez que eu vi o mapa invertido da América do Sul, alguma coisa na obra mexeu comigo, e imediatamente comecei a refletir sobre o que representa essa icônica obra do uruguaio Torres García. Lembro dia e hora do primeiro encontro: Eu era recém-chegada ao Uruguai. Minha primeira parada foi Colonia del Sacramento, num dia que chovia fraquinho mas de forma insistente.

Corremos pro hostel pra nos livrar da mochila pesada. Já passava da hora do almoço, o local estava deserto com a baixa estação. O rapaz indicou o quarto, lá no final do único corredor do pequeno e acolhedor Posada El Viajero, uma das hospedagens mais bem-avaliadas pelos mochileiros em Colonia. Comecei a caminhar até lá mas parei no meio do caminho. Na parede, a pintura tomava todo o espaço do chão até o teto, e eu só pude parar e ficar encantada. Lá estava o mapa invertido da América do Sul, desenhado por Joaquim Torres García.

Mapa invertido da América do Sul - Joaquim Torres Garcia

Mapa invertido da América do Sul, Torres Garcia. Fonte: Wikiart

Alguma coisa do meu sangue latino vibrou forte. Era como se a partir daquele quadro, o meu orgulho de ser sul-americana tivesse enfim encontrado representação e espaço no mundo. Nosso sul apontando para o norte, valorizando o que é próprio da gente nessa banda do mundo. Como se a gente já sentisse desse jeito, e Torres García foi quem veio colocar isso no papel.

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O Mapa Invertido da América do Sul, Torres García e a Escola do Sul

Na época dessa viagem, eu sabia ainda menos do pouco que sei hoje sobre o mundo. Nunca tinha ouvido falar do artista plástico uruguaio Joaquim Torres Garcia. Também não tinha a menor ideia da existência do mapa invertido da América do Sul, muito menos sobre o que significava ver o nosso continente representado assim, de ponta a cabeça. Mas aquela imagem me absorveu inteira e eu não conseguia parar de olhar.

Comecei a analisar cada coisa na pintura: o sol e a lua, um pra cada lado do continente. Os peixes no Pacífico (uma possível referência aos criadores de salmão no Chile?). As linhas dos trópicos que nos dividem e nos unem.

Procurei na internet e achei a emblemática frase de García, que traçava as primeiras explicações sobre a gravura. “Tenho dito Escola do Sul porque, na realidade, nosso norte é o Sul. Não deve haver norte, para nós, senão por oposição ao nosso Sul. Por isso agora colocamos o mapa ao contrário, e então já temos uma justa ideia de nossa posição, e não como querem no resto do mundo. A ponta da América, desde já, prolongando-se, aponta insistentemente para o Sul, nosso norte.” Joaquín Torres García, 1941.

Então o que representa o mapa invertido da América do Sul?

O mapa invertido da América do Sul é uma obra de arte. No fundo, Torres García buscava a valorização e desenvolvimento da nossa cultura, indo de encontro à constante busca da globalização de ‘homogeneizar’ os povos, com hiper valorização de tudo que é próprio ao hemisfério norte. O Natal europeu é mais bonito, o American Way of Life é o símbolo da felicidade. E pra nós, sul-americanos, o que resta? A escravidão, dependência, imitação de tudo que vem do norte.

A obra de Torres García é um redescobrimento, uma devolução do nosso orgulho em canções, costumes e tudo que é próprio ao sul-americano. Valorização da arte indígena, a primeira coisa que tínhamos e que hoje está tão esquecida no meio do mundo moderno. Uma outra América possível, onde o sul pudesse ocupar um lugar de destaque.

Preste atenção que García nunca desenhou a América do Norte em seu mapa invertido. Acho que a ideia nunca foi sermos nós, do sul, agora os donos da grande verdade, os detentores do poder no continente. Não estamos nos comparando ou subjugando outros povos. Apenas, com a obra de García, passamos a olhar pra nós mesmos, de forma diferente. Ocupando uma nova posição no mundo. Onde tudo que é nosso, que vem do Sul, passa a ser o nosso norte.

Museu Torres García em Montevidéu

AntonioTorres Garcia foi um artista uruguaio, que viveu muitos anos no exterior, entre destinos na Europa e nos Estados Unidos. Quando regressou para sua pátria, começou a criar uma arte própria, com forte influência do então inovador Cubismo, que veio revolucionar o cenário artístico em seu país.

Foi muito amigo de Gaudí e também influenciado por ele. A arte de Torres García é reconhecida como uma das mais importantes no Uruguai, pelo seu caráter inovador e também pela valorização de suas raízes.

A visita ao Museu Torres García é uma parada obrigatória para os amantes de arte (e também para os latino-americanos com orgulho) que visitam Montevidéu. Não consegui visitar o museu na minha passagem pela cidade, mas deixo aqui a dica: a blogueira Cyntia Campos escreveu um excelente post sobre o Museu Torres Garcia no blog Fragata Surprise. Uma inspiração para quem vai visitar Montevidéu!

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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Comentários:
WILLY disse:

LONGE DE ME COLOCAR DENTRE AQUELES QUE PAUTADOS NO CONHECIMENTO ADQUIRIDO PELA VIVÊNCIA E ESTUDOS, DEVO CONFESSAR QUE A MINHA SENSAÇÃO, AO TOPAR COM A FIGURA DA NOSSA AMÉRICA LATINA, DE “PONTA CABEÇA”, COMO DIZEM ALGUNS, E OUTROS, “DE CABEÇA PARA BAIXO”, FOI A DE QUE O ARTISTA, DE HÁ MUITO, APERCEBIA-SE DA NOSSA TRISTE REALIDADE. QUAL SEJA, A DE ESTARMOS PERMANENTEMENTE INVERTIDOS NO UNIVERSO!

Klécia disse:

A arte impacta a gente de diferentes formas, Willy. E acho que é exatamente isso o que o artista procura. Tirar a gente do lugar comum, nos levar a refletir. Abraço!

Di disse:

Oi Klécia, tudo bem?

Amei ler seu relato. Recentemente eu e meu companheiro viajamos o Brasil numa kombihome que nós construímos, e nossa visão mudou absurdamente sobre várias coisas.

Não me lembro o momento em que tomei conhecimento dessa obra, mas foi no meio dessa jornada.

Por conta da pandemia, estacionamos e começamos uma loja de peças artesanais pra decor, e criei uma plaquinha com esse mapa e uma frase: que el privilegio no te nuble la empatía.
Na descrição do produto no site, usei uma referência à esse seu texto e mencionei a fonte.

Queria deixar nossas redes sociais caso queira ver sobre a viagem e sobre a plaquinha 🙂
@kombimariaantonia (expedição de kombi)
@acasapangeia (loja).

Obrigada pelas informações agregadas nesse texto. Espero um dia poder visitar o museu do Torres García.

Klécia disse:

Oi pessoal! Obrigada por partilhar tudo isso! Essa obra é muito importante pra mim, e fico feliz que tenha batido forte ai em vocês também. Amei o trabalho da Casa Pangeia e já corri pra garantir minha plaquinha <3

Vitória régia serra pinto disse:

O artista uruguaio Joaquim Torres Garcia nasceu no dia 28/07/1874, a obra de Garcia é um redescobrimento uma devolução do nosso orgulho em canções, costumes e tudo que é próprio ao sul- americano, ele também inverteu a posição do mapa do continente, situando a América do Sul ao norte. Este pequeno desenho ilustra um artigo de Torre Garcia de 1935 no qual ele defende a criação de uma escola do sul a imagem ilustra uma necessidade latino-americano de buscar caminhos próprios.

disse:

Klecia – Estou com 64 anos e voltei a estudar, e tive como trabalho comentar sobre seu texto já que estamos vendo sobre decolonialidade. Fiquei encantada com sua narrativa pois nunca tinha ouvido falar sobre o Torres e esta arte tão significativa para nós. Parabéns por passar adiante esta experiêncua com tanta sensibilidade.

Klécia disse:

Olá! Nossa, fiquei emocionada de verdade com seu comentário. E também me emociono até hoje ao lembrar dessa viagem e do meu primeiro contato com o mapa de Torres Garcia e a frase “Nosso norte é o sul”. Realmente significa tanto! Obrigada por partilhar sua experiência com a gente!

Analuiza disse:

Eu vi esta imagem quando era criança, não sei onde, não sei como… Sei que também grudou em minha alma, mas não de forma tão intensa ou racional como em você, Klécia. Possivelmente por conta da maturidade e visão do mundo, que em minha meninice naturalmente era mais limitada.

Ela sempre ficou ali, oculta mas presente… sempre que vinham a tona estas questões de quem somos nós, do americanismo de nossa cultura ele aparecia, ainda que nem sempre o percebesse. Eu sinto estas questões forte e tristemente aqui em Salvador. Dói-me na alma perceber a cultura soteropolitana sendo engolida por outras culturas, muitas vezes mais pobres que as nossas.

Este texto é forte e faz-nos, como você bem o sabe fazer com sua sensibilidade e lucidez, pensar, refletir, analisar… quem somos nós sul americanos. Por que ignoramos nossa força, cultura e elementos intensos olhando para a grama do vizinho?!

Texto inspirador e lindo. Invertamos, pois, nossos mapas. beijocas

Klécia disse:

Invertamos, Ana!
Eu acho tão curioso como nossas vidas caminharam por trilhos tão distantes e se entrelaçam aqui e ali. Gostamos de tantas coisas parecidas! Esse mapa me marcou muito profundamente, e fico feliz de ter conseguido transmitir um pouquinho disso pra você com esse post. Beijos e obrigada pelo carinho!