Quatro estações em Roma: a cidade pelos olhos de Anthony Doerr

Era maio e eu tinha acabado de voltar de uma viagem à Roma, no fim de abril, estava embriagada da cidade, de seus cheiros, sensações e contrates. Estava passeando pelos corredores da livraria e dei de cara com “Quatro Estações em Roma“. Não precisei pensar muito para levar o livro pra casa. Um pouco mais de Roma na minha vida, por favor!

“Tudo parece tão velho! Tudo parece tão novo! Instantâneos de séculos passam em alta velocidade, gerações avançam aos jorros pelas ruas; velhas, carrinhos de bebê, Césares, papas, Mussolini – o tempo é um lenço brilhante tremulando diante dos nossos olhos, colunas se erguendo e se inclinando; templos subindo, afundando e subindo de novo.”

Grifei essa passagem no livro. Na verdade, é bom dizer que esse foi o primeiro livro que li fazendo marcações ao longo das páginas. Não consegui resistir a deixar marcas indicando onde as emoções e impressões de Anthony Doerr por Roma se confundiam com as minhas.

Quatro Estações em Roma, Anthony Doerr

Anthony Doerr ficou mundialmente conhecido pelo seu livro Toda Luz que Não Podemos Ver, ganhador do Prêmio Pulitzer para Ficção em 2015. Mas Quatro Estações em Roma não é um livro de ficção. Quatro Estações em Roma é um delicado livro de memórias sobre a vida do autor americano e sua família, enquanto eles viveram por um ano na Cidade Eterna.

Hoje, não existe lugar no mundo que eu ame mais que Roma. Mas, ao mesmo tempo, a cidade tem coisas que me enlouquecem, como as multidões formando filas em todo lugar. Vivi em Roma sentimentos contrastantes. A cidade é grande e cosmopolita, mas simpática como uma pequena vila em suas ruas apertadas e charmosas. A cidade é tumultuada, lotada de turistas. Mas consegue transmitir a paz única de um fim de tarde na Praça São Pedro. A cidade é velha, antiga, milenar. Ao mesmo tempo é tão viva, tão nova, tão moderna com suas grifes e carros. A cidade é arte clássica, com seus Berninis e Caravaggios… E é bossa, com seus artistas que enchem as ruas com todo tipo de som. Roma nunca é a mesma coisa todo dia. “Estou aprendendo que, em Roma, praticamente tudo tem um oposto”, como disse Doerr.

Quatro Estações em Roma, Anthony Doerr

Ganhador de um prêmio da Academia Americana de Artes e Letras, Doerr se transferiu para Roma para escrever seu próximo livro, com uma bolsa de 12 meses. Levou toda a família na bagagem: uma esposa, dois filhos gêmeos recém-nascidos. Mas nada saiu como planejado. Roma e suas várias formas foram atraindo a atenção de Doerr, o afastando do projeto de livro e o aproximando dos contrastes da cidade. Doerr percebeu Roma com muita perspicácia e sentimento, enquanto vivia no charmoso bairro Gianicolo, vizinho do conhecido Trastevere.

Quatro Estações em Roma veio como um livro de memórias sobre os desafios e as descobertas do dia-a-dia da vida de Doerr em Roma. “Como sempre acontece quando se está longe de casa, são os detalhes que nos fazem sentir deslocados”. O livro traz à luz muitos desses detalhes. Pequenas coisas que mudam nossa vida, nos tiram da zona de conforto quando a gente se depara com uma casa diferente, uma língua que não é a nossa e costumes que a gente não entende.

Mais que isso, o livro é uma viagem deliciosa pelas ruas e atrações de Roma. Cada canto que Doerr visita e descreve na cidade veio como uma linda memória para mim. Eu sentia que estava revivendo minhas próprias descobertas na Cidade Eterna. A brancura do monumento Vittorio Emmanuelle II, com suas “dez mil toneladas de mármore botticino”. Ou ainda o “molhado e musculoso quarteto de deuses dos rios criado por Bernini” na Piazza Navona. E a incrível descrição do Panteão, que embalou o sonho do autor de ver a neve caindo pelo ósculo do teto – que agora virou meu sonho também!

Panteão: Praças, fontes e obeliscos de Roma

O livro vem recheado de informações históricas e curiosidades. Há, inclusive, um conjunto memorável de notas no fim do livro, explicando lugares e referências importantes para Doerr. Doerr me ajudou, inclusive, a aceitar Roma como um mistério. Há segredos e encantos que, mesmo após anos de vivência na cidade, permanecerão indecifráveis. “Mais uma vez sinto, de forma aguda, que somos forasteiros, que há coisas em Roma que nunca chegarei nem perto de entender. (…) Não sei nada. Vivi em Roma durante quatro estações. Nunca consegui atravessar os portões que me separavam dos italianos. (…) Roma, dizem, non basta una vita. Uma vida só não é suficiente.”

Quatro Estações em Roma foi um livro que devorei em poucos dias. A leitura fácil e cheia de emoção. Com uma linguagem sincera, Doerr nos guia pelas as ruas da Cidade Eterna. Eu já amava Roma, foi fácil cair de amores pela narrativa. Aproveitei para revisitar a cidade que hoje domina meu coração. Quatro Estações em Roma é um livro pra quem já foi, e pra quem quer ter o gostinho de ir à Roma.

Quatro Estações em Roma: memórias de um escritor americano na Itália

Autor: Anthony Doerr
Edição brasileira: Editora Intrínseca, 2017.

 

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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Comentários:
amamelo disse:

Que post inspiração!!! Adoro livros que me remetem a viagens apaixonantes. Adorei a dica e o relato!

Klécia disse:

Obrigada! O livro é mesmo daqueles que a gente vai sonhando com cada pagina!

bstorquato disse:

Sou apaixonado por livros e por Roma. Esse livro já tem vaga garantida na minha lista!

Klécia disse:

Boa leitura e boa viagem, entao 🙂

Fiquei super curiosa para ler esse livro, já foi para minha lista!
Adorei seu relato misturando o livro e suas vivências… demais!

Klécia disse:

Que bom que gostou, Mirella! O livro me encantou, assim como Roma 😀

Simone Hara disse:

Adorei a dica. Com certeza já achou lugar na minha lista de leitura!

Klécia disse:

Que bom, Simone! O livro vale a viagem! 🙂

Que massa! Muito bom quando a gente encontra uma obra que traduz tudo aquilo que sentimos, né? Curti demais o seu relato, e já coloquei aqui na minha lista o Quatro Estações em Roma!

Valeu pela dica! Um abraço

Klécia disse:

Super vale a leitura, Flávio 🙂

Leo Vidal disse:

Adorei essa ideia de ler um livro baseado em alguma cidade e ir grifando as passagens para depois visitar os locais ao vivo. Fora que Roma é incrível!

Klécia disse:

Maravilhoso né? Foi ótimo visitar a cidade assim!

Também me enchi desses sentimentos contrastantes, viu? Era uma cidade que eu sonhava em conhecer e ao mesmo tempo em que eu chorei de emoção ao ver o coliseu, me irritei profundamente com a multidão de turistas!

Klécia disse:

A multidão deixa a gente louco, né? Acho que é a principal crítica a Roma, de todo viajante! Apesar disso, de ter ficado louca várias e várias vezes nas muitas filas, voltei apaixonada pela Cidade Eterna! Vai entender esses contrastes 🙂

Sensacional!!!! Já cai de amores por este livro, pela narrativa! Quero ser conduzida por Doerr e sentir o que ele sentiu, ver o que ele viu! Quero ver Roma através de suas experiências. Minha lista de destinos-desejo é imensa, mas a de livros dá a volta no planeta! srrsrsrs beijocas

Muito amor por esta nova sessão! 🙂

Klécia disse:

hahaha super me identifico com a lista de livros que não para de crescer! Da terra a lua, ida e volta, duas vezes! <3