Como é morar na Europa: a realidade contada por uma brasileira

Morar na Europa é o sonho de muito brasileiro.  Mas como será a realidade de quem se muda para o Velho Continente? A brasileira Maytê Scaravelli, do blog Passaporte com Pimenta (Facebook|  Pinterest | Instagram ) se mudou para a Espanha, e conta pra gente quais as experiências e aprendizados da sua vida por lá.

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Morar na Europa sempre soa como algo muito chique. Os amigos sempre acham que estamos ricos e que levamos a vida perfeita! Sei também que as redes sociais estão aí a nosso favor e sempre ilustramos a parte boa das nossas vidas. Mas também, com tanta desgraça porque vou postar coisas ruins, não é mesmo?

Então hoje vou mostrar os dois lados de morar na Europa. Vocês vão perceber rapidamente que nem tudo são flores, como muitos imaginam!

Parei para fazer uma reflexão de como é a minha vida aqui e tentei mostrar os dois lados da moeda!Morar na Europa

1. Viajar barato

Viajar pela Europa é extremamente barato (se você souber procurar). Nunca fiz tantas viagens como nesse últimos anos. Já fui quatro vezes para a França, fiz uma road trip por Portugal, estiquei um feriado em Dublin, passei um final de semana em Andorra, conheci Sófia que eu não fazia ideia de onde era, visitei amigos em Londres e claro, aproveitei (muito) para conhecer a minha região que é lindíssima.  

Companhias aéreas como Ryanair e Vueling te oferecem vôos a partir de 10 euros. Não, eu não digitei errado, você leu correto: D-E-Z E-U-R-O-S uma passagem aérea. Bom, não é sempre que encontramos por esse valor, mas por 15 eu encontro todo mês. Basta flexibilidade e pesquisa.

Hotéis também são baratos. Existem opções para todos os bolsos, mas já fiquei em Cotê d’Azur, um dos lugares mais caros da França, por 30 euros a noite em um flat, muito confortável por sinal. Aqui, sites como Grupon e Peixe Urbano funcionam muito bem.  

Alimentação também pode ser muito barata, se não tiver frescura e se estiver afim de se jogar em restaurantes locais (os meus preferidos). 😉

2. Família

Essa talvez seja a parte mais difícil para mim, que sou completamente maluca pela minha família e grudada neles.

Até dois anos atrás eu trabalhava com o meu pai, meu irmão e minha mãe. Almoçávamos todos os dias juntos. De um dia para outro eu passei a almoçar sozinha, em casa e na frente do computador.

Além de trabalhar a semana toda com eles, eu me reunia com a família todos os finais de semana. Nunca soube cortar o cordão 100%. Quando casei tive que fazer isso pelo bem do meu casamento, mas ele ainda era um pouco pendurado. Quando eu me vi em outro país, me restou aprender a lidar com essa situação e me reunir aos finais de semana via Skype. Com o tempo as crianças vão crescendo, e eu que sempre fui uma dinda e uma titia apaixonada pelos meus pequenos, me vi acompanhando as conquistas e as evoluções da criançada por fotos e vídeos (isso talvez eu nunca supere).Morar na Europa

3. Férias  

De nada adianta todas as vantagens de viajar barato se a gente não tem férias, não é mesmo? Mas a verdade é que a maneira como as férias funcionam por aqui é bem interessante e se você souber gestionar bem, é possível tirar até 45 dias de férias no ano!      

Aqui você tem 25 dias úteis de férias, que podem ser aproveitados da maneira como você bem entender. Emendar feriado, tirar um único dia, tirar 10, 15 ou os 25 dias. Lembrando que final de semana e feriado não contam como férias. Basta abrir o calendário no início do ano e se planejar. Emenda aqui, aproveita ali e assim vai…

Ah, aqui na Catalunha a maioria das empresas só trabalham até às 14:00 na sexta-feira!

4. Amigos

Não muito diferente da família vem os amigos! Morar fora é perder amigos, mas também ganhar muitos outros. Ok, você provavelmente está pensando: Amigo mesmo nós temos poucos, e os verdadeiros a gente não perde!

Você tem toda razão, mas alguns escapam pelos vãos dos dedos e são rebaixados para o nível: colega. A rotina nos pega de jeito, o tempo não tem freios. A vida segue e as pequenas coisas (que muitas vezes são valiosas) vão ficando para depois e depois e depois. E o depois nunca chega e lá se vai um amigo, depois outro e outro…

O coração às vezes aperta, a gente manda aquela mensagem mas as coisas já não são mais as mesmas. E a conversa fica mais ou menos assim:

    • Oi amigo, tudo bem?
    • Olá, quanto tempo! tudo bom e com você?
    • Tudo bem tbm! E as novidades?
    • Ah, tudo na mesma viu e por aí?
    • Por aqui também, nada de novo!
    • Ah legal, manda um abraço para todos…
  • Pode deixar! Beijos

Sem que você perceba a rotina e o tempo vão te roubando todos os seus amigos e quando você parar e pensar, sua vida no Brasil é só mais uma página virada e você começa a desenhar as páginas em branco de um novo livro, com uma nova estória.

O mais estranho disso tudo, é pensar que pessoas que conviveram a mais de 20 anos com você nada sabem dessa nova página.

E os churrascos? Os casamentos? As confraternizações? Esse é o dia que você deixa o celular desligado e esquece que um dia viveu em terras tupiniquins.Morar na Europa

5. Evoluí o meu paladar

Eu sempre gostei muito de gastronomia, gosto de comer, gosto de provar embora nunca me arrisque muito em campos que eu não conheço.

Sempre fui MUITO nojentinha para comer, essa é a palavra! Usar o termo chata é errado, como muito bem, mas se tem cara feia e duvidosa eu já faço cara de nojinho e digo: Não gosto!

Pois bem, me vi em um país novo com pessoas diferentes e com uma gastronomia riquíssima, pessoas que comem com prazer e que valorizam cada fio de azeite que está no prato. Aqui ninguém come para se alimentar, aqui se come porque é um ato prazeroso. Logo nos primeiros dias eu torci o nariz para o prato mais tradicional da cidade: caracóis! Mais conhecido como escargots. Quase uma ofensa eu torcer meu nariz e dizer: não como, não gosto, obrigada. Sem nunca ter nem provado o bichinho.

Me aventurei e provei, ele não é tão ruim. Só é difícil engolir um bicho com anteninhas que eu tiro de uma conchinha. Mas pelo menos eu provei e agora sim posso dizer que não gosto.

Após essa experiência, passei a provar tudo. Então eu descobri novos sabores que eu nunca iria provar. Alguns foram aprovados, outros não!

Em quase dois anos que estou aqui o meu paladar mudou completamente, passei a dar valor para os produtos frescos e locais, passei a entender a história daquilo que eu como e reconhecer que devo me abrir para compreender uma cultura por completo. Pois nada é mais cultural que a gastronomia local.Morar na Europa

6. Fazer comida todos os dias (almoço e janta)

Aqui não existe vale refeição, vale transporte ou qualquer coisa do gênero. As pessoas recebem o seu salário e ponto. Se quiser almoçar fora todos os dias, pode, mas isso vai lhe custar bastante. Praticamente todo mundo leva a sua comida!

Eu gosto de cozinhar (quando eu tô afim), mas fazer isso por obrigação é um saco, e o que antes era só o jantar (e olha lá) agora é almoço e jantar. O que tem que ser bem mais planejado do que qualquer comida fresquinha que sai do fogão e vai para mesa.

7. Valorização do Produto local

É bonito de ver o quanto os europeus valorizam os seus produtos locais. Confesso que nunca liguei para essas coisas, ia no mercado e comprava tudo que era de marca. Nunca fui menina de ir à feira mas aqui aprendi a dar valor para o produto local.

No supermercado encontramos prateleiras que eles chamam de Km 0, o que significa que é feito e produzido na região. Sempre um pouco mais caro, mas sempre mais fresco! Sempre dou preferência para esses, sinto que estou fazendo a minha parte e sendo beneficiada por não comprar produtos com tanto conservante.

É muito comum também você encontrar restaurante que não tem cardápio fixo, eles classificam o cardápio como: Menu do dia, Menu da feira, Menu local. A ideia é simples, o chef vai até a feira ou mercado, compra o que tem e o que tá bom, volta para o restaurante, elabora. O menu é aquilo que tem. Tem maneira melhor de comer comida fresca?Morar na Europa

8. Aprender o mais profundo significado de Respeito

Morar em outro país é ter contato com outros povos, quase que diariamente! Aprender que aquilo que você passou a vida inteira achando estranho é completamente normal em outras culturas, e você deve respeitar! Comer com a mão (não um frango a passarinho, mas sim arroz), arrotar na mesa, fazer barulho ao comer e até matar em nome de Deus.

Não aceitamos, eu não aceito, eu não consigo acreditar nisso, mas é real, é verdade e nós sabemos – acontece!

Mas tirando o último item, o resto é totalmente compreensível e devemos respeitar. Muitas vezes, inclusive, devemos nos ambientar.

Desde que cheguei aqui e até por já ter vividos experiências anteriores de morar em outro país, eu me vejo cada vez mais tolerante. Hoje sou uma pessoa mais tranquila e respeito mais as diferenças (tenho muito o que aprender ainda). Logo eu, uma pessoa que sempre olhei para o meu próprio umbigo e achava que ele era o centro do mundo!

Viver no meio do fogo cruzado entre Catalunha e Espanha é completamente insano para nós brasileiros que não temos ideia do que é uma guerra! É meio maluco viver em um país que está separado por dois povos que se odeiam tanto (palavra forte mas totalmente real). Mas a cada nova conversa sobre o assunto: aprendo e respeito as opiniões e os pontos de vista (mais uma vez eu digo: tenho muito para evoluir sobre esse assunto).

9. Brasileiros são mal acostumados

Nós brasileiros somos mal acostumados, principalmente quando falamos de serviços. Não fazemos nada, temos e queremos tudo na mão!

Mas aqui isso custa caro (e muito). Com 27 anos nas costas, eu me vi tendo que aprender a fazer muita coisa: lavar, passar, limpar a casa, fazer unha (mão e pé), depilação e até pintar o meu cabelo.

Talvez você diga: ué nunca fez isso antes? Bom, fazer eu até fiz, uma ou outra vez mas em caso de extrema necessidade. Se dava, logo empurrava (leia-se pagava) para alguém fazer.

Mas descobri também que fazer tudo isso não mata e nem cai a mão. E claro que agora, fazendo as contas do quanto eu gastava com tudo isso no Brasil, me dou conta do quanto eu deixei de economizar.

Saindo do cenário ‘do lar e recatada’, vamos para outros exemplos de como somos mal acostumados. Abastecer um carro. No inverno, aquele frio negativo, e você ter que sair do carro para encher o tanque pode ser um verdadeiro incômodo. Mas sério mesmo que a gente precisa de alguém (e pagar mais caro na gasolina) para alguém encher o nosso tanque?

Descarregar a compra do supermercado no porta-malas do carro e largar o carrinho no meio do estacionamento? Ah sempre tem um senhorzinho ou aquele menino (pequeno aprendiz) que vai vir pegar mesmo. Aqui não! Para você usar o carrinho de supermercado tem que colocar uma moeda e se quiser ela de volta deve voltar o carrinho no lugar certo. Simples não?Morar na Europa

morar na Europa: Conclusão

Acho que deu para perceber que nem tudo são flores e que nem é tão glamour morar por aqui (como muitos pensam). Toda vez que estou limpando o meu banheiro penso nos amigos que dizem: que chique você morando na Europa. 😉 #sqn

Espero que tenha conseguido passar os dois lados de viver a vida aqui no velho continente! Aprendo todos os dias e acredito que não tenha nada que seja ruim, é apenas uma adaptação.

Quer ver outro relato super interessante e verdadeiro sobre morar fora do Brasil? Confira esse relato do blog Estrangeira, contando sobre o lado B de morar na fora.

Salve esse post no seu Pinterest pra lembrar do nosso site sempre que for planejar sua viagem! 😊

Como é morar na Europa

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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Comentários:
Giselle disse:

Li rapidamente o post e achei bem legal… me deparei com muitas coisas que você falou, principalmente sobre a parte de casar, se desligar e com 27 anos passar a ter responsabilidades domesticas q antes não tínha.

Agora só me falta a questão de viajem e estou bem perto. Vou levar em conta algumas coisas que você escreveu.

Mesmo com tudo isso, você acha que valeu a pena?

Klécia disse:

Oi Giselle, tudo bem? A Mayte segue morando na Espanha, agora com filhinho e tudo! Acho que ela considera que está valendo a pena sim 🙂

Diego Arena disse:

Muito legal ler suas experiencias. Sempre imaginamos que é 1000 maravilhas mas tem alguns outros lados né?
Mas isso é viver..

Klécia disse:

Sempre tem dois lados em tudo, Diego! Isso é mesmo a vida!

Adoro esses relatos contando a experiência de quem realmente vivencia na pele essas mudanças. Lindo post, parabéns

Klécia disse:

Que bom que gostou, Thiago! 🙂

Andrea disse:

Que legal o seu relato….e esse viajar barato (e fácil) é uma coisa incrível, fazendo com que a cada momento as pessoas estejam em lugares diferentes, conhecendo o mundo.,..

Klécia disse:

Com certeza Andrea! Uma das melhores partes!

rozembergue disse:

Eu amo a Europa e tenho muita vontade de passar uma temporada por aí. Já sabia de boa partes das “parte ruim” de morar aí, mas como você mesmo disse, morar no exterior nos enriquece e nos fazer pessoas melhores. Ótimo post. Parabéns!

Klécia disse:

A Mayte arrasou no relato, einh Rozembergue? Tomara que você consiga morar lá qualquer dia! É uma experiência enriquecedora, tanto pra o pessoal quanto emocional! Boa sorte na aventura 🙂

Lulu Freitas disse:

Parabéns pelo post sincero, tirando o glamour e ilusão de que viver na Europa é fácil. Para todo estrangeiro é difícil, porque não é seu país, sua língua, sua cultura. Quanto aos amigos, você sente que é mais difícil fazer amizade com os estrangeiros? São mais fechados?

Lulu, acho que não é difícil não! Temos que entender que é uma nova cultura e nós temos que nos adaptar a eles e aos costumes local. Posso dizer aqui da Espanha, o povo é muito aberto e receptivo, sinto que eles são muito parecidos com os brasileiros!

a realidade é realmente dura, eu me adaptei bem a Inglaterra, mas como você disse a família mesmo é o que pesa! Também acho que os brasileiros são bem mal-acostumados!

Klécia disse:

Pois é, Flávia! Refleti muito sobre isso no texto da Mayte. A gente só percebe as diferenças quando mora longe, e brasileiro vacila muito em algumas coisas. E a saudade da família sempre pesa!

Concordo com todos os itens descritos. Alguns dos itens senti como se eu mesma tivesse escrito, pq vivencio exatamente a mesma coisa. Acho engraçado isso dos brasileiros acharem “chique” morar na França ou qualquer outro país… Pensarem que somos ricos pq ganhamos em euros, esquecendo do detalhe que também pagamos as contas em euros né? Mas tirando essa idéia viajada que os outros (em especial dos brasileiros) tem da vida aqui, e a saudade dos amigos e da família, eu ainda acho sem dúvida que é mil vezes melhor do que morar no Brasil. Mesmo precisando fazer tudo sozinha – até a própria mudança (isso é surreal) como mencionado no item 9 rss..

Klécia disse:

hahaha tem coisas que a gente só descobre que é capaz quando precisa fazer né? Muito engraçado se pararmos pra pensar!

Alessandra Fratus disse:

Adorei esse relato. Não deve, de fato, ser fácil de morar longe da sua família, dos seus amigos, do seu país (mesmo que seja o Brasil nos dias atuais), mas adorei como eles tiraram de letra e encontraram as coisas positivas dessa experiências! Amei a primeira foto. Já me ganhou ali! 😉

Klécia disse:

A primeira foto é minha favorita também <3

ë, sei na pele o que é deixar tudo para trás, família, amigos, Brasil e se aventurar em um novo país. Mas como pegamos o lado bom da coisa, sabemos aproveitar e viajar, que realmente é mais fácil.

Klécia disse:

A melhor parte com certeza é viajar o/

cwrgutierrez disse:

Excelente post, disse realmente tudo como é a vida de quem como a gente mora fora do país, onde você morar? Eu moro em Barcelona.

Eu moro em Lleida =D pertinho de BCN 😉

Mapa na Mão disse:

Gostei… bem isso, a gente imagina uma coisa e nada como viver para saber a realidade.

Klécia disse:

Só quando a gente vira personagem da história mesmo que a gente percebe a realidade! Maior verdade da vida 🙂

Klécia, muito obrigada pela oportunidade de contar um pouquinho os dois lados da moeda de como é viver por aqui. =D Espero que eu tenha conseguido mostrar que nem só coisas boas vivemos por aqui, e que de fato isso só acontece mesmo em filme! 😉

Klécia disse:

Foi ótimo Mayte! Adoramos ouvir a sua experiência! A vida real é mesmo muito diferente dos filmes!
Obrigada por mostrar os dois lados pra gente, e sinta-se sempre bem-vinda para novos textos no Fui Ser Viajante!