Uma aventura sobre rodas: 300 dias de bicicleta com Sven Schmid

Eu sempre me enxerguei como uma viajante com um pezinho na aventura. Adoro a sensação de pegar a estrada sem destino certo, acampar sob o céu de estrelas, descobrir cachoeiras lindas numa estrada escondida do caminho…

O desafio me atrai, junto com o desconhecido. Mas tenho que ser sincera: todas as minhas definições de aventura foram redefinidas por Sven Schmid em 300 dias de bicicleta.

O homem, sua magrela – docemente apelidade de Stefanie -, a estrada e a mochila. Uma jornada de 22 mil quilômetros pelo continente americano: de Buenos Aires, na Argentina, a Calgary, no Canadá.

A minha primeira pergunta ao ler a capa do livro foi: O que esse alemão tinha na cabeça para sair pedalando por um continente inteiro?

Passado o primeiro susto, vieram os questionamentos de ordem prática: Como ele fazia para se comunicar? Como atravessou os Alpes?

E os perigos das estradas sul-americanas? Guerrilhas, milícias, roubos? Como ele lidou com o frio, com o calor? Ele não teve problemas de migração?

Uma loucura, né?

A ideia parecia absurda demais pra mim. Eu nem imaginava que fosse possível fazer esse caminho todo de bicicleta.

Foi a curiosidade por tudo isso que fez 300 dias de bicicleta vir parar na minha prateleira. Por que partir para uma missão com tanto potencial para dar ‘muito’ errado?

Essa resposta veio logo nas primeiras páginas, bem mais simples do que imaginei. Tudo começou com um problema burocrático.

Sven precisou sair do Brasil para renovar seu visto de trabalho no país. Então porque não aproveitar o exílio forçado para pedalar por um novo continente?

Novo porque Sven já era familiarizado com longas distâncias, quando fazia longas viagens de bicicleta pela Europa. Era hora de desvendar um novo continente!

Mas a gente sabe que não dá bem pra comparar Europa e América, né? E foi por isso que a história de Sven e sua bicicleta foi ficando cada vez mais interessante – eu não conseguia parar de ler, para saber qual seria o próximo desafio!

O desapego e a solidão.

Imagina viver 300 dias com o que cabe no bagageiro da bicicleta, e só. Inclua no espaço ainda a barraca para acampar e a comida. Ah, você vai sem telefone. E vai passar o seu aniversário sozinho no deserto e sem falar com ninguém. Sua família não terá notícias suas quase nunca. Quem topa?

O legal foi descobrir, lendo 300 dias de bicicleta, que tem muita gente que topa! Tem muito viajante cruzando largas distâncias de bicicleta. Sven fez amigos que estavam na mesma jornada, mas na direção oposta, de norte a sul. Encontrou casas que recebem ciclistas, oferecendo comida e pouso. Um tanto de gente se aventurando pelo mundo de formas que eu não tinha ideia, apresentado para mim em 300 dias de bicicleta.

As estradas, as lindas paisagens e a resistência física.

A gente sabe que conservação de estradas não é o forte do nosso continente. Os cenários são de tirar o fôlego, mas muitos contratempos vão surgindo por falta manutenção, perigos e sinalização.

Só conseguia pensar nas dificuldades que Sven enfrentou para cruzar as entradas pela Cordilheira dos Andes, pelos desertos… As variações de paisagens e climas, com o pouco descanso de dormir numa barraca na beira da estrada.

Chuva, sol, frio, calor. Comida racionada para os percursos mais longos. Mil cenários lindos, duas mil condições desafiadoras.

Leia também: De Mendoza a Santiago: Atravessando os Andes pela Estrada de Los Caracoles

O choque cultural, as diferenças de língua.

Não entender perfeitamente o espanhol, encontrar pessoas diferentes, novas a cada dia. Em quem confiar?

Segundo o próprio Sven, “a experiência de ser estrangeiro – que também significa ter que depender de estranhos – me transformou. (…) Numerosas situações me obrigaram a compreender pessoas, confiar nelas e aceitar a sua ajuda.

Muitas vezes isso exigiu de mim coragem e força. Mas também me aproximou das pessoas e me abriu para estranhos e situações novas.”

Os medos e a coragem de Sven.

Bandidos, fronteiras, conflitos. A gente que mora por aqui já se treme todo ao imaginar os conflitos armados por drogas, milícias e organizações como as FARC.

E lá foi esse europeu e sua bicicleta, peito aberto e a vontade de pedalar e descobrir o mundo. Loucura? Amor pelo ciclismo e pelo desconhecido? Um pouco de cada?

300 dias de bicicleta: será que eu teria coragem?

Honestamente, acho que não. Meu maior desafio seria a solidão, mas tem a questão do medo do que encontrar também. Já me desconcerta só de imaginar. No fim, acho que não sou tão aventureira assim haha.

300 dias de bicicleta é um pequeno manual de sobrevivência, com detalhes da imersão cultural, dos perigos e desafios, além dos bonitos encontros de Sven pelas Américas.

Tudo isso temperado com lindas paisagens – em fotos que poderiam estar coloridas no livro #ficaacrítica.

Pra mim, 300 dias de bicicleta é, muito mais que uma viagem de bicicleta, uma viagem pelo auto-conhecimento, pela descoberta do que realmente você precisa na vida, de quem você é.

E você, partiria para 300 dias de bicicleta?

300 dias de bicicleta: 22 mil km de emoções pelas Américas
Sven Schmid
Edições de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016.

Lila Cassemiro
Pernambucana, contadora de histórias e bem curiosa. Geminiana apaixonada por artes e culturas, sempre com a mala pronta pra viajar de novo. Eu gosto de gente.
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Comentários:
Arturo Alcorta disse:

Leitura leve, para descansar e sonhar com um bom cansaço de uma viagem destas. Parabéns Sven.
Mais um estímulo para cair na estrada, ótimo estímulo.
Confesso que não me lembro quem me deu o livro, mas agradeço muito.

Rafael Cassemiro disse:

Oi Arturo, O livro é realmente incrível, viajamos junto com o Sven em cada trecho do livro!
Grande Abraço e boas viagens!

Yago Pena disse:

Cair de paraquedas no seu texto e te digo… que sensacional!! Muito feliz pelo texto!!

Klécia disse:

Esse livro é muito bom Yago! Recomendamos! 🙂

Eu comecei a ler seu texto sobre 300 dias de bicicleta e não conseguia parar. Imagino você acompanhando essa aventura. Já anotei porque eu quero ver isso tudo de perto, ver a jornada de Sven, já que a coragem que ele teve eu não tenho. A vontade sim, de colocar a mochila nas costas e caminhar sem rumo, sem pressa e sem data para voltar, mas a coragem necessária para enfrentar os perigos ai de fora, não tenho.

Ainda bem que existem as páginas de livros como esse para que a gente possa se aventurar aconchegada no sofá com uma boa taça de vinho né?! bjusus

Klécia disse:

Acho que por isso a aventura de Sven me emocionou tanto, Ana. Uma vontade de pegar a estrada eu tenho, a coragem para fazer isso numa bicicleta, por dias a perder de vista, com todos os perigos envolvidos, nao. Foi meu jeito de realizar um sonho sem sair da minha cadeira, com uma boa taça de vinho viajando comigo!