Povoado Marcelino: as mulheres que transformam a fibra do buriti

Visita ao povoado Marcelino em Barreirinhas | A mata tomava conta das margens do Rio Preguiças. Dava pra ver as palmeiras de Buriti. Nosso guia fez questão de avisar que ele só cresce perto de água bem limpa.

Aquele lugar de mata preservada na cidade de Barreirinhas, no Maranhão, parecia mesmo ser o lugar ideal para a palmeira crescer. Nossa traineira foi cortando o rio, até que, cerca de 12 km depois, atracamos numa clareira da mata.

A placa avisava: bem-vindos ao Povoado Marcelino.

Acesso ao povoado Marcelino em Barreirinhas

Fomos subindo a escada improvisada com pneus e terra, que facilitava a subida naquela ladeira íngreme na beira do rio.

Lá em cima, algumas poucas casinhas, todas bem simples. Um cercado dividido por galinhas, patos e gansos. E muita, muita natureza.

Em uma dessas simpáticas casinhas (a mais colorida de todas), a dona Sônia nos esperava com um sorriso.

Povoado Marcelino e a arte de trançar a fibra do buriti

Ela ia mostrar pra gente (junto com outras mulheres do povoado de Marcelino) como essas mãos habilidosas transformam a fibra do Buriti em arte e moda.

A fibra do buriti vai tecendo histórias

A palmeira do Buriti está por toda parte nas margens do Rio Preguiças. Para tirar o “olho do Buriti”, que é a folha mais nova, que fica na parte mais alta da palmeira, os homens vão pra mata.

Cada palmeira dá um olho a cada 3 meses, e é preciso saber como retirar o olho do buriti para não matar a planta.

Palmeira do Buriti em Barreirinhas, Rio Preguiças

Em seguida à atividade extrativista, os homens em geral vendem esse material para as mulheres artesãs, que retiram a fibra do olho do buriti e transformam esse material em arte!

Leia também: Roteiro de 9 dias pela Rota das Emoções

Entre as mulheres que desempenham esse trabalho, estão as mulheres do povoado Marcelino.

Dona Sônia foi mostrando pra gente como extrair a fibra do olho do Buriti e até deixou a gente tentar repetir o processo por conta própria.

Como extrair a fibra do Buriti - Povoado Marcelino

Depois, uma a uma, foi mostrando as plantas do quintal que dão as cores para tingir a fibra.

Cada cor, extraída de uma planta, uma raiz. Inacreditável quantas cores elas conseguem produzir com as plantas ali do quintal.

Cores da fibra do Buriti

O fogo é aceso e quando a água está bem quente, vai a fibra do buriti e a erva ou o pó pra dar a cor, tudo dentro da panela.

Misturamos o urucum e imediatamente as fibras ficaram com um tom laranja brilhante, bonito de se ver.

Buriti tonalizado com Urucum

Dona Sônia retira as fibras de dentro da panela e leva até a cerca na frente da casa, pra secar.

Um, dois, três bolos de fibra multicolorida vão sendo estendidos ali.

Fibras do Buriti secando no povoado Marcelino

Voltamos pra casa e algumas moças estão trançando uma bolsa, ali, ao vivo. Mãos habilidosas podem transformar essa fibra num chapéu, nos mais variados tipos de bolsa, até em uma saia.

Criatividade não tem limites, e a fibra do buriti também não tem.

Fibra do Buriti povoado Marcelino

Ao longo de toda visita, as mulheres do povoado Marcelino vão contando suas histórias, que se confundem com a história do Buriti. Como essa palmeira veio pra transformar a realidade delas.

Cooperativa dos Artesãos dos Lençóis Maranhenses – ARTECOOP

A palmeira do Buriti faz parte da paisagem e da vida das mulheres artesãs do Maranhão.

Hoje existe uma associação de cerca de quase 100 mulheres artesãs, formando a Cooperativa dos Artesãos dos Lençóis Maranhenses – ARTECOOP.

Essas mulheres pertencem a várias comunidades ribeirinhas. Além de Marcelino, as mulheres cadastradas na associação estão espalhadas pelos povoados de Boa Vista, Baixão, Cebola, Guarimanzinho, Guarimã, Juçaral das Canoas, Manoelzinho, Morro Alto, Palmeira dos Eduardos, São José dos Sacos, Tapuio e Vigia.

A associação começou a ser apoiada pelo Programa de Artesanato do Sebrae a partir de 2000, e desde então cresceu e já levou os integrantes e suas produções para diversas feiras e eventos, tanto no Brasil quanto internacionais.

Já teve até estilista famoso desenhando criações para serem produzidas pelas artesãs da fibra do buriti! Imagina que bacana para essas mulheres ribeirinhas, ver seu trabalho nas passarelas do mundo!

A união dessas mulheres transformou o alcance de sua arte, a realidade financeira de suas vidas, tudo. De uma forma sustentável e linda de se ver.

Fibra do Buriti povoado Marcelino

A iniciativa já foi inclusive premiada em 2004, com o Prêmio Top 100 do Sebrae de Artesanato.

No fim do nosso passeio, passamos pela sala onde estão expostos os produtos à venda. Bolsas, carteiras, chapéus, objetos de decoração – tudo com um preço muito em conta.

Produtos de buriti - povoado Marcelino

Andei pelas paredes, escolhendo algo pra levar pra mim. Não só por comprar, mas por incentivar esse trabalho tão bonito e a união dessas mulheres tão habilidosas.

Comprei uma bolsa bem bonita e a dona Sônia embrulhou com todo capricho, fechando o saquinho com uma fibra colorida de buriti.

A visita ao povoado ribeirinho de Marcelino foi uma baita vivência sobre a realidade dos povos ribeirinhos, especialmente sobre a experiência de vida dessas mulheres cheias de talento e força.

Fibra de buriti - povoado Marcelino

Uma lição de vida, sobre como uma comunidade conseguiu se organizar e explorar de modo sustentável a riqueza natural da região, fazendo arte!

Como visitar o povoado Marcelino

Para quem planeja conhecer os Lençóis Maranhenses pela cidade de Barreirinhas, é possível fazer esse passeio cultural pelo Rio Preguiças com visita ao povoado Marcelino, que é oferecido pela empresa Vale dos Lençóis Transporte e Turismo.

O passeio cultural até o povoado Marcelino é recente, e surgiu como uma rota turística alternativa pelas águas do Rio Preguiças.

As saídas acontecem no atracadouro da Pousada Murici (onde inclusive a gente já se hospedou, e recomendamos muito!).

Atracadouro da Pousada Murici

O passeio tradicional e mais famoso em Barreirinhas segue até a foz do rio, passando por Caburé e Vassouras (com os famosos macacos-prego que roubam coco e qualquer coisa que estiver na sua mão).

Já esse tour para o Povoado Marcelino faz o caminho contrário, contra a correnteza do rio, a caminho da nascente.

É uma proposta de turismo de experiência, onde o turista pode ter um contato mais íntimo com a cultura local, conhecer pessoas, aprender e trocar conhecimento.

Extraindo a fibra do Buriti - povoado marcelino

Além de tudo, com os excelentes preços da arte vendida na Associação de Artesãs no povoado Marcelino, o passeio ainda é uma excelente oportunidade para comprar lembranças de viagem.

A qualidade das bolsas e chapéus é excelente, a peça é única e cheia de personalidade, e você ainda ajuda a fortalecer o trabalho dessas mulheres incríveis que trabalham tão bem a fibra do buriti em Barreirinhas.

Leia também: Nascer do sol nos Lençóis Maranhenses: como ver?

Na volta pra casa, navegando de lancha voadeira pelo Rio Preguiças, ainda fomos presenteados com um lindo por do sol em meio à mata exuberante das margens do rio.

Por do sol no Rio Preguiças

Quando ir ao Povoado Marcelino?

Em geral, quando se pergunta a melhor época para ir aos Lençóis Maranhenses, a reposta vem rápido: de maio a setembro, quando param as chuvas e as lagoas estão mais cheias.

Mas para visitar o povoado Marcelino, não tem essa restrição. O Rio Preguiças é navegável o ano todo, então mesmo que você vá para Barreirinhas fora da alta estação, é possível fazer o passeio cultural pelo Rio Preguiças até o povoado Marcelino.

Povoado Marcelino - Barreirinhas

Vai visitar o povoado Marcelino? Depois volta aqui e conta pra gente nos comentários como foi sua experiência!

Fonte de pesquisa: Artesol (Artesanato Solidário)


* O passeio Nascer do sol nos Lençóis Maranhenses foi uma das atividades da Fampress Rota das Emoções no Nordeste, que fizemos a convite do Sebrae Nacional (por meio de suas sedes estaduais no Maranhão, Piauí e Ceará) e da Prisma Consultoria, por meio de investimentos do programa Investe Turismo do Ministério do Turismo. 
-> Todas as informações relatadas no post representam nossa experiência pessoal e opinião sobre o passeio.

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Klécia
Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, mas que escolheu chamar o mundo inteiro de lar. Apaixonada pelas estradas e pelos destinos, acredita no poder dos encontros e descobertas de quem está sempre a caminho. O maior sonho? Colocar a mochila nas costas e dar a volta ao mundo ♥
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