Pequena África no Rio de Janeiro: a herança negra que quiseram esconder

Você já ouviu falar da Pequena África no Rio de Janeiro? O termo é antigo, vem do comecinho do século 20, e desde então vem sendo utilizado para falar dos bairros que ficam nas imediações da zona portuária carioca.

A referência fica fácil de entender quando a gente lembra que essa região, na época do Brasil Colônia, recebia centenas de milhares de negros, desembarcando dos navios para serem escravizados aqui no Brasil.

Eram tantos, com tantos dialetos e costumes, que algum desavisado que desembarcasse no porto do Rio de Janeiro podia mesmo pensar que tinha chegado na África. Essa região do Rio era mesmo uma “Pequena África”.

Mesmo depois que o comércio de escravos se tornou ilegal no Brasil, muitos negros continuaram vivendo, trabalhando nessa região. Ali, eles começaram a se reconhecer como comunidade e criar laços. Uma nova casa, tão longe de casa.

Essa herança africana é parte da história do Rio de Janeiro. Ajudou a moldar a sociedade carioca como a conhecemos hoje: com samba, candomblé, festa de santo e carnaval.

O problema é que, no meio de tanta tradição e cultura, pouca gente conhece a história da Pequena África. Se você pergunta até mesmo aos cariocas, tem gente que nunca ouviu falar, não sabe onde é ou mesmo o que significa.

Não é motivo de orgulho pra ninguém pensar em quanto sofrimento e injustiça aconteceram nos portos de escravos no Rio de Janeiro, na época da escravidão. Talvez por isso, houve uma tentativa sócio-política de “esconder” o passado mais sombrio da Pequena África.

Mas hoje, temos liberdade de dizer que não é esse o caminho que queremos seguir. Não é pra se orgulhar, mas é importante conhecer, debater e conscientizar as novas gerações.

Primeiro, para valorizar a cultura negra e tentar pagar pelo menos um pouco dessa enorme dívida histórica causada por anos de escravidão e repressão.

Segundo, para combater o racismo que ainda é muito forte na nossa sociedade. E terceiro, para impedir que qualquer coisa assim jamais aconteça no futuro.

Por tudo isso, topamos o convite da agência Sou+Carioca para participar do tour Pequena África no Rio de Janeiro. Um tour caminhando pelas imediações da Zona Portuária, que mudou nossa forma de enxergar a cidade que moramos.

Foi uma experiência tão cheia de significado que não poderíamos deixar de compartilhar com vocês aqui no blog tudo que aprendemos participando do tour Pequena África no Rio de Janeiro.

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Conheça a Pequena África no RJ em vídeo

Fizemos um vídeo mostrando os pontos altos do tour e um pouco do bate-papo com as guias da Sou+Carioca. Clica aqui pra assistir nossa experiência:

Deixa o seu joinha se você gostou do vídeo sobre a Pequena África no Rio de Janeiro. E para acompanhar nossas dicas do Rio de Janeiro e de muitos outros cantinhos do mundo, aproveita e assina nosso canal do Youtube!

Como funciona o tour Pequena África com a Sou+Carioca

O tour é organizado pela agência Sou+Carioca, que oferece esse e muitos roteiros alternativos pela cidade do Rio.

O tour Pequena África funciona como um passeio guiado. Vamos caminhando com a Sou+Carioca pela região portuária e bairros adjacentes, que tem a ver com a história da comunidade negra no Rio de Janeiro (Saúde, Gamboa e Santo Cristo).

É importante ir com roupas leves e calçado confortável, porque o tour acontece bem no meio do dia. Você conhece a fama do calor no Rio de Janeiro, né?

Esteja preparado para enfrentar muito sol (especialmente nos meses de verão). É bom levar uma garrafinha com água, passar protetor solar e de preferência usar um chapéu.

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Roteiro: por onde passamos no tour Pequena África

O tour inteiro levou quase 3 horas, entre caminhadas e paradas em pontos estratégicos para discutirmos a história da herança negra no Rio de Janeiro.

Museu de Arte do Rio (MAR)

O ponto de encontro é na Praça Mauá, em frente ao Museu de Arte do Rio (MAR), às 10h.

Fomos recepcionados pelas guias Luana Ferreira e Gabriela Palma da Sou+Carioca, que ofereceram uma tolerância de 15 minutos antes de começar o tour, para garantir que ninguém ia ser deixado para trás.

Tour Pequena África no Rio de Janeiro com a Sou+Carioca

Ali em frente ao lindo prédio do MAR, a guia começou a explicar porque o nome Pequena África, junto com todo o contexto da chegada dos negros ao Rio de Janeiro. Uma introdução histórica ao tour.

Morro da Conceição

A próxima parada foi num lugar que sempre tive curiosidade de conhecer na cidade do Rio, mas nunca tinha ido por puro DESCONHECIMENTO e PRECONCEITO.

Pra quem vem de fora do Rio, o termo favela assusta um pouco. Confesso que, antes do tour, eu achava que o Morro da Conceição fosse uma favela, e eu não sabia se seria seguro caminhar sozinha por lá.

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Morro da Conceição, tour Pequena África

Gente, sabe porque não tenho vergonha de assumir aqui hoje que eu estava totalmente ERRADA ao pensar assim? Porque quero exatamente mostrar como o tour faz a gente repensar a cidade, ocupar espaços que o MEDO insiste em segregar.

Aquilo que a gente conhece, a gente não teme. Conhecimento liberta e por isso não podemos deixar de aprender, nunca.

Primeiro, que o Morro da Conceição não é, nunca foi uma favela. Eu não tinha a menor ideia, mas nos primeiros anos de ocupação da cidade do Rio, morar no morro era chique demais, coisa de gente rica.

Pobre morava ao nível do mar, lugar contaminado pelos “maus ares” do porto. Quem diria que isso ia mudar tanto, né?

Pois bem, aprendi que o Morro da Conceição é um bairro residencial, que na verdade ajudou a demarcar os primeiros limites da cidade do Rio (junto com os morros do Castelo, de São Bento e de Santo Antônio).

O bairro é pura nostalgia, com casinhas coloridas de estilo português, gente conversando na janela, crianças brincando na rua, cachorro latindo quando a gente passa e roupa estendida no varal na calçada.

É incrível notar como a estrutura simpática do bairro se preservou, apesar de tantos séculos já terem passado, tantos prédios terem aparecido ao redor, a movimentada Avenida Rio passando bem ali do lado…

A cidade mudou tanto, mas o Morro da Conceição parece que parou no tempo.

As curvas e esquinas vão levando a gente para encontrar ruas de nomes engraçados, que se destacam pela beleza escondida na simplicidade (como a Rua do Jogo da Bola e a Ladeira João Homem), além de muitos prédios de importância histórica dentro do bairro.

Dois exemplos são a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição (1718), que a gente só viu de longe, e a Igreja de São Francisco da Prainha (1696), onde a gente parou por alguns minutos para observar o calçamento original, com pedras pé-de-moleque colocadas por negros escravizados.

Igreja São Francisco da Prainha, Morro da Conceição no Rio de Janeiro

Outro ponto bacana (que não está no tour) mas vale conhecer no morro é o Bar Imaculada, muito tradicional no Rio e que já está no meu roteiro para a próxima visita.

Largo São Francisco da Prainha

O nosso próximo ponto de parada está no sopé do Morro da Conceição. O Largo de São Francisco da Prainha é um lugar que a gente já frequentava muito, mas nunca tinha parado pra pensar no local dentro do contexto histórico da Pequena África.

O que nos atraiu para o largo sempre foi o pólo gastronômico formado pelos bares Angu do Gomes, de um lado e Casa Porto, do outro. Botequins mais que tradicionais da Zona Portuária do Rio.

Mas eu nunca tive curiosidade, por exemplo, de procurar a história da mulher retratada na estátua no meio do largo. Conceição Baptista foi a primeira bailarina negra do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Conceição Baptista - Largo da Prainha - Tour Pequena África

Mas infelizmente ela nunca conseguiu um papel de destaque no corpo de baile, porque afinal quem ousaria colocar uma mulher negra no centro do palco da maior casa de espetáculos do Rio, lá no começo do século 20?

Foi assim que ela se mudou para os Estados Unidos para estudar e representar, e voltou ao Rio para montar a primeira escola de dança afro-brasileira do Rio de Janeiro. Conceição ainda foi responsável pelo surgimento das primeiras alas coreografas nas escolas de samba do Rio.

Toda essa história guardada por uma estátua que eu já tinha visto tantas vezes, mas nunca tinha procurado conhecer. Por isso, pergunto de novo: você conhece a sua cidade?

Outra coisa que aprendi no tour Pequena África era o que o Largo da Prainha virou ponto de referência dentro da comunidade negra por causa das casas de zungú, onde se preparavam refeições com angu, mingau de milho que dava força para o trabalho braçal que os negros precisavam realizar na zona portuária.

E eu que não tinha a menor ideia disso, indo comer angu no Angu do Gomes, desde que vim morar no Rio!

As casas de zungú reuniam os negros, então não demorou a surgir manifestações da cultura e herança negra nesses locais. Música, dança, religião. Nas casas de zungú, os negros podiam recriar os laços de vida em sociedade, que a retirada forçada da África tinha destruído.

Até hoje, no número 13 do Largo da Prainha, você pode ver um prédio onde funcionava uma dessas tradicionais casas de zungú. Inclusive, nesse local ficou famosa uma batida policial no final do século 19, que prendeu 30 negros numa tentativa de reprimir suas manifestações culturais e religiosas.

Por fim, no Largo da Prainha, ainda conhecemos a Casa do Nando, outra opção gastronômica que vem oferecer pratos tradicionais da cultura negra e carioca com preços bem mais em conta que os restaurantes mais famosos do largo.

Pedra do Sal

Bem ao lado do Largo da Prainha, a famosa Pedra do Sal surge como mais local de ocupação e resistência negra na cidade.

A presença negra no local vem de muito tempo, quando pobres e afrodescendentes ocupavam as partes mais baixas da cidade, modificando essa região perto do porto e aos pés do Morro da Conceição.

Pedra do Sal, Rio de Janeiro

A Pedra do Sal, historicamente, era o local de desembarque e quebra das pedras do sal que chegavam de navio nos portos do Rio. As águas da baía de Guanabara vinham até ali, acredita?

Foi convivendo ali, especialmente nas casas de zungú e nas casas das “tias baianas”, que misturavam dança, festa e religiosidade, que a comunidade negra foi criando sua identidade no Rio. O samba nasceu nesse ambiente, a culinária carioca se formou sob essas influências.

A casa da Tia Ciata, a mais famosa das tias baianas, considerada patrona do Carnaval e das Escolas de Samba do Rio, ficava nas imediações da Pedra do Sal. Aprendi muito sobre ela num outro passeio no Rio, o tour pelos bastidores de um escola de samba.

Hoje os descendentes desses primeiros negros da região formam o Quilombo Pedra do Sal, com direito legítimo sobre a terra que seus ancestrais ocupam há tantos anos.

Hoje o local é a sede de um dos sambas mais tradicionais da cidade, toda segunda feira (o Samba da Pedra do Sal). Mas a Pedra do Sal é muito mais que um local de festa: é um local de herança negra, vida em comunidade e resistência negra.

Jardim Suspenso do Valongo

Próxima parada, outro lugar que eu nunca tinha visitado no Rio, apesar de passar tão perto várias vezes.

O Jardim Suspenso do Valongo foi criado por Pereira Passos, como um espaço de inspiração europeia, para funcionar como área de lazer para a comunidade mais endinheirada que vivia no Morro da Conceição.

O lugar está bem abandonado (mato crescendo alto), o que mostra que não há muito esforço do poder público em preservar e divulgar a nossa história.

O mais curioso de lá foi notar as estátuas romanas enfileiradas, fazendo frente a uma “casa de engorda”, onde os negros que chegavam mais fracos nos navios eram trazidos para comer e ganhar força antes de serem vendidos.

Jardim Suspenso do Valongo, Tour Pequena África

Bem estar, que nada. Estavam pensando no lucro mesmo. Pois é.

Dos jardins, dá pra avistar o Morro da Providência, a primeira região favelizada do Rio, no conceito que conhecemos hoje. E quer saber como começou essa troca, com os ricos saindo do morro e a população mais pobre ocupando esses espaços?

O governo prometeu que quem fosse lutar na Guerra dos Canudos ganharia um pedaço de terra quando voltasse ao Rio, bem ali onde hoje está a Favela da Providência. O pessoal foi, lutou, voltou. O tempo passou e nada de receber a terra.

Então o pessoal foi lá e ocupou – o que era deles por direito, por promessa do poder público.

E o nome favela, de onde veio? Favela é uma flor, mas essa planta não é original do Rio de Janeiro. Contam que era bem comum na região da Batalha de Canudos, e talvez alguns homens que lutaram lá tenham trazidos mudas e levado para o morro.

Fato é que hoje, se você chegar perguntando pela tal flor no morro da Providência, ninguém vai saber te mostrar. Na verdade, falam que ela nem existe mais por lá.

Mas agora eu ouvi a história, nunca mais vou parar de pensar nessa flor que carrega tanta história.

Cais do Valongo

Talvez o lugar mais importante que passamos em todo o tour. Quando falei que tentaram enterrar a memória da herança negra na cidade, eu estava falando bem sério.

A referência é o Cais do Valongo, um antigo porto de desembarque de escravos construído para afastar o comércio de escravos do centro da cidade e dos olhos dos mais ricos.

O cais do Valongo fica nos arredores do Rio Antigo, e só ia pra lá quem realmente estava procurando comprar ou vender escravos. O que pouca gente sabe é que esse foi o porto que mais recebeu escravos, em todo o mundo!

Milhares de pessoas desembarcaram aqui para encontrar um destino muito cruel.

Com o fim do comércio legal de negros no Brasil, o lugar era uma mancha na história da cidade. E eles quiseram literalmente apagar esse pedaço da história.

O Cais do Valongo foi totalmente coberto, para ser esquecido. Os vestígios materiais só foram descobertos na época da reforma da zona portuária para construção do Boulevard Olímpico, quando toda a história voltou à tona.

O Cais do Valongo se tornou o 21º sítio brasileiro inscrito na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO, tamanha a importância do que esse lugar representa para a história do Brasil e do mundo.

Mural Etnias no Boulevard Olímpico

E chegamos na última parada do tour Pequena África, em frente ao lindo mural Etnias, pintado pelo artista Eduardo Kobra, na época das Olimpíadas Rio 2016.

Mural Etnias, Tour Pequena África no Rio de Janeiro

E embora este seja mais um lugar que eu já cansei de visitar no Rio de Janeiro, até aqui aprendi um pouco mais com as guias da Sou+Carioca.

Os 5 rostos representados no maior mural de graffitti urbano do mural representam os anéis olímpicos, e por isso os 5 continentes.

Kobra fez questão de representar cada um com a face de um dos povos originários. A primeira delas, de quem vem caminhando desde a Praça Mauá, é a África. A América está bem no meio do mural, retratada pelo rosto pintado de um índio da tribo Tapajós.

Vale a pena fazer o tour Pequena África no Rio de Janeiro?

Gostamos muito da experiência de acompanhar a Sou+Carioca nesse roteiro tão transformador pelo centro do Rio de Janeiro.

Confesso que meu olhar sobre a herança negra na cidade mudou muito, especialmente ao olhar para aqueles lugares que eu já conhecia, porém não tinha ideia da importância histórica.

Como li no material de divulgação da Sou+Carioca, “a presença africana e o patrimônio cultural negro marcaram para sempre a história não apenas do Rio de Janeiro, mas de todo o Brasil”.

Pedra do Sal, Tour Pequena África

E isso precisa ser divulgado, reconhecido, valorizado. Gostamos da vivência e por isso fizemos questão de questão de divulgar o tour Pequena África no Rio de Janeiro com esse post, para que mais pessoas (cariocas ou não) conheçam esse roteiro.

Para fazer o tour Pequena África no Rio de Janeiro, entre em contato com a Sou+Carioca (Site ou Página do Facebook).

* Nós participamos do tour Pequena África no Rio de Janeiro a convite da agência Sou+Carioca. Todas opiniões descritas relatam a nossa experiência real na atração. Para mais informações, consulte as políticas do blog.

Lila Cassemiro
Pernambucana, contadora de histórias e bem curiosa. Geminiana apaixonada por artes e culturas, sempre com a mala pronta pra viajar de novo. Eu gosto de gente.
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