Visita ao Museu Cais do Sertão, Recife: como foi a experiência

Museu Cais do Sertão em Recife | João Cabral de Melo Neto estava mais que certo: “Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera”.

O Museu Cais do Sertão foi inaugurado em 2014, ali onde a gente menos esperava: no coração do Recife Antigo, no armazém 10 do antigo porto.

Perto do famoso Marco Zero (aquele que marca todas as distâncias das terras de Pernambuco), e bem em frente ao mar (por isso o nome, Cais).

Como se ali, a tantas léguas de onde a terra racha por falta de chuva, e de frente para um infinito de água, a gente pudesse contar pra toda gente que a história do sertão não é apenas sobre seca, miséria e morte.

Sertão é poesia. Sertão é fé, renascimento. Sertão é resistência. Sertão é luta.

Se você quer conhecer alguns museus de Recife, recomendo fortemente que considere fazer uma visita ao Museu Cais do Sertão.

Museu Cais do Sertão: história e outras curiosidades

Desde que foi inaugurado em 2014, esse museu vem colecionando prêmios nacionais e internacionais, tanto de arquitetura, quanto de gestão e inovação.

A visita ao Museu Cais do Sertão é uma imersão de cultura. Uma reverência à força do povo nordestino, suas tradições e resistência.

Museu Cais do Sertão Recife - Roupa de lampião
Foto: Fui Ser Viajante

Uma das marcas registradas do museu é sua pegada mais tecnológica e imersiva, com instalações audio-visuais e outros recursos expositivos modernos e interativos.

A curadoria e direção de criação ficou por conta da socióloga pernambucana Isa Grinspum Ferraz (a mesma responsável pelo incrível Museu da Língua Portuguesa em São Paulo).

Todo o acervo foi pensando para enaltecer o homem do sertão, desde o sertanejo anônimo até o seu filho mais conhecido, Luiz Gonzaga, o Rei do Baião.

LPs de Luiz Gonzaga
Foto: Fui Ser Viajante

Para incentivar ainda mais a cultura do estado, vários artistas locais foram convidados a participar e expor suas obras, como J. Borges, cordelista e xilogravurista pernambucano, e um verdadeiro time de cineastas, como Lírio Ferreira, Paulo Caldas, Marcelo Gomes, Kleber Mendonça Filho e Camilo Cavalcanti.

O resultado é que a visita ao Museu Cais do Sertão me emocionou do começo ao fim, sabe?

Com certeza, parte disso vem do sentimento de pertencimento, com minhas origens no Agreste e uma pequena vivência dentro das condições de falta de chuva. Nos personagens retratados, eu vi meu avós, meus tios, tantos outros antepassados.

Roupas de vaqueiro, Museu Cais do Sertão
Foto: Fui Ser Viajante

Mas você não precisa ter parentes na região para entender e se emocionar com a grandiosidade do museu Cais do Sertão. É um museu para todos, que trouxe para a beira do mar a riqueza de vida e de histórias que há no sertão do nordeste.

O que esperar da visita ao Museu Cais do Sertão?

O museu Cais do Sertão é moderno, colorido, imersivo, visual e tecnológico. Vá preparado para realmente mergulhar na cultura sertaneja, com vídeos, peças e muita história.

Arquitetura

A primeira coisa surpreendente para quem visita o Museu Cais do Sertão é a arquitetura do prédio em si – que já faturou várias premiações pelo mundo.

O galpão do antigo armazém portuário foi completamente reformado e adaptado. É impossível não notar aquele prédio com ares modernos enquanto você passeia em meio aos prédios mais antigos do bairro histórico de Recife.

Uma área livre na lateral foi anexada ao galpão, para produzir um vão livre de 56 metros de extensão sem apoio de pilares na parte central (um dos maiores do Brasil), que rendeu um efeito visual impactante.

Quem passa por ali, se impressiona. E o mais curioso é que o projeto moderno incorporou elementos tradicionais da cultura nordestina, como o estilo dos cobogós que revestem toda a fachada.

É como se fosse o antigo e o novo se encontrando.

Museu Cais do Sertão - detalhes da fachada
Foto: Fui Ser Viajante

Jóias da Coroa

Depois de entrar no museu e pagar o ingresso (R$8 por pessoa), a primeira instalação que você vai ver é uma enorme vitrine, chamada “Jóias da Coroa“.

Ali estão expostas algumas sanfonas e peças de vestuário tradicionais do sertão, como o gibão de couro.

Roupas de Luiz Gonzaga - Museu Cais do Sertão
Foto: Fui Ser Viajante

É uma homenagem ao homem sertanejo, especialmente ao Rei do Baião, Luiz Gonzaga, que fez história difundindo o forró e a cultura sertaneja pelo mundo.

Em suas apresentações, o Gonzagão fazia questão de usar as vestimentas tradicionais do sertanejo, e várias peças que estão expostas na vitrine pertenceram ao filho de Januário.

Espaço Útero: Curta-metragem “Um dia no Sertão”

Em seguida, todo o grupo de visitantes foi conduzido para uma sala de vídeo, o Espaço Útero.

O curta-documentário “Um dia no sertão”, dirigido por Marcelo Gomes, é exibido numa tela panorâmica de 180 graus. É como se a gente estivesse sendo transportado para dentro da história.

O filme tem apenas 16 minutos, mas foi o suficiente para rir, chorar e se emocionar com um sertão que eu já conhecia, e outro que eu nem imaginava que existia.

O filme retrata um dia na vida das pessoas de Serra Talhada, cidade do Sertão pernambucano, a mais ou menos 6 horas da capital.

Inclusive, as pessoas que apareceram no filme vieram a Recife na época da inauguração do museu, para assistir o curta. Eles foram, ao mesmo tempo, atores e espectadores das suas histórias e, para muitos deles, aquela foi a primeira experiência de “cinema”.

O mundo do sertão

Saindo do filme, vamos conhecer a exposição do hall principal, chamada Mundo do Sertão.

São 7 ambientes, representando diferentes momentos da vida sertaneja: Viver, Ocupar, Cantar, Trabalhar, Migrar, Criar e Crer.

Apesar dessa divisão teórica, a iluminação e toda a ambientação dos espaços gera um sentimento de conexão.

É como se tudo estivesse exatamente no lugar onde deveria estar, numa narrativa muito bem contada que vai nos levando cada vez mais para dentro daquele sertão.

E para representar esse elo de ligação, passando pelo meio do salão, vemos um curso de água, uma referência clara ao famoso rio São Francisco.

Rio São Francisco no Museu Cais do Sertão
Foto: Fui Ser Viajante

Fotos, páginas de jornais, músicas, pequenos filmes, tudo é muito interativo.

Para mim, que tenho uma família que veio da zona rural do interior de Pernambuco, muita coisa que vi no museu resgatou memórias de meu passado – que ainda é presente em muitas regiões e para tantas pessoas.

A casa de pau-a-pique, o oratório, os quadros nas paredes com fotos de familiares, os utensílios de cozinha, as roupas de vaqueiro…

Quadros na parede - Museu Cais do Sertão
Foto: Fui Ser Viajante

Exposição Museu Cais do Sertão
Foto: Fui Ser Viajante

Alguns outros espaços me impressionaram: o Bosque Santo, no Território Crer, uma reunião de paus coloridos (que foram pintados pelos próprios operários na construção do museu) e faz referência aos tradicionais paus-de-sebo, comuns nas festas de São João.

Tem também o Túnel do Capeta, um túnel espelhado onde os efeitos de iluminação e som mexem com os sentidos, trabalhando o ideológico do sagrado e do profano. Para mim, é o lugar que rende as melhores fotos dentro do Cais do Sertão.

Túnel do capeta - museu Cais do Sertão
Foto: Fui Ser Viajante

No Território Migrar, tem um painel gigante chamado Ir e Vir, onde estão expostas sessenta matrizes de xilogravura do artista J Borges (que é natural de Bezerros, no Agreste, cidade vizinha a minha cidade natal).

O painel é um espetáculo de cores e conta a história da migração do povo nordestino para cidades como Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro.

Pra mim, foi como uma viagem no tempo. Para quem não tem nenhuma vivência do sertão, é uma experiência enriquecedora demais.

Segundo piso

No segundo andar do Museu Cais do Sertão, você tem uma vista maravilhosa de toda a exposição principal, no térreo. Vale a pena subir e conferir, para tirar algumas fotos.

Vista do segundo piso do Museu Cais do Sertão
Foto: Fui Ser viajante

Além disso, o segundo andar conta ainda com uma pequena exposição de vinis históricos, além de paredes ilustradas com poemas que fazem referência ao sertão.

Por fim, no segundo piso funcionam o acervo técnico e tem uma sala para cursos e oficinas, com parede envidraçada que deixa a gente ver de fora o que está acontecendo lá dentro. Quando fui, tava rolando uma oficina com instrumentos.

Oficina museu Cais do Sertão Recife
Foto: Fui Ser Viajante

Exposições temporárias

Como cheguei perto do fechamento do museu, não consegui ver as exposições temporárias, só o acervo principal.

Mas para quem visita com mais tempo, no primeiro andar funcionam um auditório e mais duas salas de exposição, que recebem as instalações temporárias. Uma sala é capaz de receber 3 exposições simultâneas.

Museu Cais do Sertão: planeje sua visita

Onde fica o Museu Cais do Sertão?

No Recife Antigo, a poucos metros do Marco Zero do Recife Antigo. O endereço certinho é Avenida Alfredo Lisboa, Armazém 10.

Qual o horário de funcionamento?

O Museu Cais do Sertão é fechado às segundas-feiras. De terça a sexta, funciona das 9h às 17h. Aos sábados e domingos, das 13h às 17h.

Museu Cais do Sertão: ingresso

Os ingressos custam R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Na quinta-feira, a entrada é gratuita.

Ah, e tem também a opção do ingresso-casadinha: na compra do ingresso de um dos Museus (Cais do Sertão ou Paço do Frevo), você ganha 50% de desconto no outro.

Os dois museus ficam no Recife Antigo e estão na minha lista de favoritos entre os museus de Recife.

Outras dicas de atrações turísticas em Recife e região

Aqui no blog, você pode conferir outros posts interessantes com dicas de passeios em Recife:

– O que fazer em Recife e Olinda

– O que fazer no Recife Antigo

– 10 museus de Recife que valem a pena visitar

Instituto Ricardo Brennand e Oficina Ricardo Brennand

E na região:

– O que fazer em Porto de Galinhas

Onde se hospedar em Recife:

A região favorita dos turistas que visitam Recife é a praia de Boa Viagem. É lá que ficam os melhores hotéis da cidade. Além disso, você vai estar perto de restaurantes, shopping e da praia, claro!

Veja algumas opções de hospedagem em Boa Viagem

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Lila Cassemiro
Pernambucana, contadora de histórias e bem curiosa. Geminiana apaixonada por artes e culturas, sempre com a mala pronta pra viajar de novo. Eu gosto de gente.
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